16 de ago de 2019

Memória emocional pelo caminhar nas agroflorestas da Reforma Agrária no Vale do Paraíba



RELATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE REALIZADA NA CAPACITAÇÃO PEDAGÓGICO-PROFISSIONAL EM AGROECOLOGIA (APTA/INCRA-SP) NO PROJETO DE ASSENTAMENTO CONQUISTA, TREMEMBÉ – SP, NO DIA 25 DE JULHO DE 2019, EM TODO PERÍODO NO PROJETO DE ASSENTAMENTO NOVA ESPERANÇA EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS – SP.
                           José Miguel Garrido Quevedo, Engenheiro Agrônomo, Perito Federal Agrário, Membro do Setor de Meio Ambiente e Recursos Naturais do INCRA - SP
                                 Verônica Andressa de Castro, Estudante de Graduação do curso de Engenharia Agronômica da FCA /UNESP – Botucatu


      1.      APRESENTAÇÃO

A seguir está o relato da atividade conduzido pelo assentado Valdir Martins e pelo agricultor Lucas B. S. Freitas, ambos integrantes da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba, do qual tem como finalidade apresentar o sistema agroflorestal proposto no território de domínio de um assentado agrofloresteiro e uma retrospectiva do presente servidor do INCRA que, em sua trajetória, possuí registrado na memória emocional pelo seu caminhar na Reforma Agrária no estado, momentos relacionados a este Projeto de Assentamento e especificamente a este líder do MST, apresentado na introdução deste relatório.

            2.      INTRODUÇÃO

Foi um tempo áureo no governo do estado, a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo tinha sido criada, passamos por um concurso público, do qual sentimos a solidariedade em nossas veias, torcíamos para ver todo o corpo técnico do ITESP, vinculado a Fundação da UNESP, ser aprovado e integrar a nova Fundação que estava nascendo. Ela foi reestruturada em moldes de uma empresa pública, dos quais divisões foram criadas e havia gerências que atendiam todo espectro das necessidades da Reforma Agrária do estado. As coordenações regionais repartiram o estado em áreas de influência. O agora funcionário público teve a possibilidade de sentir e opinar em que área iria trabalhar.
A equipe formada, a nata distribuída nos cargos de chefia. Era um tempo de trabalho, suor e sonhos realizados. Uma abertura política que colocava “lenha na fogueira” para a Reforma Agrária florescer no âmbito do estado. Um espiral de trabalho crescente, era o que vivíamos.
Um convênio com o INCRA, possibilitou a constituição de uma equipe de avaliadores que elaborariam os laudos de fiscalização e avaliação de processos, dos quais validariam se Fazendas eram aptas para a Reforma Agrária ou não e se alcançaram os índices de produtividade exigidos por Lei. Trabalho de grande envergadura em que regiões do estado foram eleitas como prioritárias. O período de caça as “terras prometidas” estava instalado.
O presente servidor, junto com o grande amigo Benedito Gomes da Silva, compuseram a equipe que perdigou o Vale do Paraíba. Participou como aprendiz do Laudo de Fiscalização que levou a desapropriação do Projeto de Assentamento Nova Esperança em São José dos Campos. Sentiu-se agrônomo de verdade, com o auxílio deste companheiro de luta, o Benedito, a aferir se aquele território ia para os braços do movimento social e virar “Terra Reformada”. As equipes, com isenção, fizeram esta triagem em diversas regiões no estado. Onde se verificava se a propriedade atendia os índices exigidos e servia, ao menos, como estímulo aos produtores vizinhos e mesmo aquele proprietário sob crivo, tornar suas terras produtivas. Era a Constituição Federal sendo aplicada na prática.
Os Cálculos de Capacidade de Uso das Terras, Evolução de Rebanhos, Notas Fiscais de Produção, Registros de Vacinação eram medidos e checados no ano anterior, em que a fazenda estava sob avaliação desde o momento de notificação por parte do Governo Brasileiro.
A fazenda em questão não alcançou os índices mínimos de produtividade exigidos pela carta-mor do Governo Brasileiro. Ganhamos um novo território para compor a “Terra Prometida”. Visualizava projetos para aqueles mares de morros, e planícies de várzea, terras pretas de índio, que volveram a mão do domínio popular.
Desconhecia o trabalho deste militante, o Valdir Martins, que trabalhou na organização das famílias que foram assentadas neste Projeto de Assentamento, pois estavam em um “universo paralelo”. Tempos depois, em outra avaliação, agora em Jacareí, conheceu este líder em Trabalho de Campo. Agora já no Instituto de Colonização e Reforma Agrária, dera um passo na carreira do presente servidor, era agora Federal.
A seguir encontra-se o relato de vida do Perito Federal Agrário José Miguel Garrido Quevedo:
  Nos arredores daquele acampamento, sofri um acidente, onde fui protegido pelo Alto, e tive a solidariedade que atingiu o coração, fui alimentado pelos acampados enquanto aguardava o resgate de meus pares, nada sofri naquele “PT” (perda total). Neste período conheci Valdirzinho, e soltei aquela infeliz frase, que ele ouviu em outras esferas. “Ocê é vagabundo, tem medo da enxada e é adepto aos Sistemas Agroflorestais para poder largar seu lote e seguir militando”. Doce engano. E mais tarde, ganhei a chefia do Serviço de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Divisão de Obtenção e Implantação de Assentamentos do INCRA em São Paulo. Me sufocava o trabalho burocrático, desorganizado, fazia meus chefes e subordinados sofrer atrás de demandas e apagar incêndios de processos de meio ambiente pelo Estado. Num momento de alívio, pegava minha equipe, e fugia para o interior, respirar um pouco. Nesta ocasião conheci o trabalho da APTA, os mutirões agroflorestais de implantação de agricultores referência. Retornei ao PA Nova Esperança. Foi tão importante esta vivência para mim, que tenho no mural de fotografias da minha vida profissional, fotos do Antonio de braços abertos feito Jesus, que ao lado de minha mesa de trabalho, me inspira em momentos difíceis. Lá novamente, compartilhei momentos de aprendizado com o Valdirzinho, que se vangloriava por ter conseguido trazer técnicos do INCRA para aquela atividade. Só a nata, a equipe de Meio Ambiente.”

Novo trecho, novos tempos, e este servidor a serviço da Reforma Agrária, com a missão de separar o território dos animais e das plantas da área produtiva, a fim de tornar este ambiente sustentável, seguiu seu caminho.
A oportunidade de realizar uma formação em Sistemas Agroflorestais surgiu. Elaborou-se esta proposta junto a APTA e agora encontraram-se novamente, agora com o mestre Valdirzinho. Que com generosidade nos recebeu, mesa farta de produtos da roça, não parou de transmitir conhecimento, tudo que aprendeu e aprende neste “universo paralelo” que é a Agroecologia, que une corações, que une ideais, que une sonhos. 
Pequeno viveiro de produção de mudas nativas e exóticas para uso na agrofloresta.

Aprendeu com o Professor a plantar diversas hortaliças, tudo junto, respeitando seu gosto pela altura, numa união, em que uma planta cria a outra. O plantio de árvores frutíferas e madeireiras, um planejamento agrícola de seu território onde claramente estabeleceu suas metas. Terra de Olerícolas, num primeiro momento, Terra de Frutíferas num segundo, terra de Herança para os filhos empreenderem quando daqui a pouco seu pai vai ganhar o mundo, ensinando o que sabe aos seus pares e como não, a todos que vêm em busca de saber. Já pensa em seus netos, manejando árvores que serão ceifadas daqui a 25 anos. “Como pude pensar tanta bobagem, como dá trabalho manejar um facão, além do esforço físico há o mental.”, reformo minha opinião sobre o mestre Valdirzinho.

               3.      APRESENTAÇÃO DO SAF

Depois do café reforçado, o início dos trabalhos. Um papo teórico, em que o Professor transmitia vida, dominando os termos técnicos e o espírito dos Sistemas Agroflorestais, fazendo-nos compreender conceitos e princípios até então nebulosos, para nós iniciantes.
Não basta apenas entender o gosto pela altura de cada planta, deve-se compreender a função do tempo no amadurecimento de seu SAF. “Primeiro sai o rabanete e a rúcula, aí a alface tem como engordar. Enquanto são criados pela couve, a espera de ser colhida”. A importância da serapilheira, manto sagrado, que protege o solo, permite que o solo sempre úmido seja o berço confortável para os bebezinhos, as mudinhas das hortaliças. A importância da adubação com farinhas de rocha e esterco, a correção da acidez com calcário. O espaçamento adequado para cada vegetal desenvolver: a alface necessita de 30 centímetros entre plantas seus pares, a rúcula 15 centímetros, o alho porró 15 centímetros, a couve chinesa “shingensai” 20 centímetros, a mandioca 1 metro e o tomate 1 metro. Este é o mosaico a nós apresentado, o consórcio das olerícolas a ser implantado.
Valdir e Lucas ensinam a implantação de horticultura sintrópica.

Espécies hortícolas que serão plantadas em associação e o respectivo espaçamento.
Esclarecido que são todas juntas. Cada planta tem respeitado a distância a seu par, não importando se está ao lado, em menor espaço, com a “companheira”, uma alusão ao tratamento dado aos companheiros de luta pela “Terra Prometida”. Compreendido o conceito fundamental nos Sistemas Agroflorestais com Hortas Sucessionais. São três canteiros que formam o módulo produtivo deste Sistema Agroflorestal. Selando cada módulo, uma linha de plantio de árvores frutíferas, entre elas a bananeira, e madeireiras, uma de cada lado, como linhas de diversidade que tem no feijão guandú, a adubadeira, como cultura de preenchimento dentro desta linha de diversidade.


Com o entendimento nivelado, fomos conhecer o lote do Valdirzinho. Terra preta de índio, como é tratada a várzea de inundação ou planície de inundação, como é o caso. Associadas ao mar de morros, a eles acopladas. Um lote que apresenta todos os tipos de relevo existente nesta grande propriedade desapropriada.
Subindo morro à cima, caminhando entre uma floresta em formação, encontra-se diversidade de plantas, fustes eretos, diâmetros a altura no peito generosos. Plantas saudáveis em franco desenvolvimento. Uma área cultivada com bananas, onde foi nos apresentado o capim Guatemala, vistoso, de fácil manejo e grande fornecedor de cobertura para o sistema. O manto sagrado, que permite vida, que guarda a umidade, é a pele daquele sistema.
Chegando a uma pastagem com braquiária, há o capim Guatemala que foi semeado e espera crescer, inibindo o desenvolvimento da braquiária por sombreamento e num futuro próximo vir a substituí-la. Em uma parte do percurso, o morro ficou íngreme. Tal trecho pertence à região de fronteira agrícola, em comparação aos rincões inexplorados deste país a fora. Um bravo colaborador retira do sistema a planta pioneira de colonização daqueles solos, a braquiária, há cinco dias de trabalho árduo.  A braquiária foi roçada antes e o trabalho se restringe a retirar as raízes da gramínea com a enxada já que o colo da planta possui as gemas que apresentam crescimento vigoroso. A grade niveladora Home completará o serviço, respeitando os limites do relevo, de preparar de solo a espera de implantação de novos sistemas agroflorestais.
Borda de SAF regenerativo de mata ciliar.
Fascinado, o percurso orientado pelo seu filho de quatorze anos, que maneja as palavras técnicas fincadas no conhecimento prático. Descendo o morro, há um sistema agroflorestal com o eucalipto, árvore madeireira fornecedora de massa verde, lignina e celulose para os sistemas. Trata-se da planta que fornece palanques e mourões para a propriedade. Uma aula de manejo de corte pelo filho do mestre. O corte do ponteiro, em que a gema apical da árvore é cortada a pelo menos quatro metros de altura, que se tem acesso por escada. Ocorre a explosão de brotos, onde poucos são escolhidos, a maioria são ceifados, em operação futura. A árvore recebe o estímulo de engordar, alcança diâmetros a altura do peito, compatíveis com seu uso, madeiras estruturais para o Sítio Ecológico.
Área de nascente em recuperação - capim guatemala é a principal gramínea nesse SAF regenerativo.

Fronteira entre braquiária e área agrícola com linhas de SAF com banana, guandu, frutíferas e arbóreas diversas, incluindo eucalipto manejado para madeira.
Uma parada para água refrescante e iniciou-se a etapa de fertilizar os canteiros, cobri-los com o manto sagrado, no caso, restos de podas de árvores da cidade cortadas em pequenos pedaços, e elaboração do designer vivo das mudas a ser plantas, discutido anteriormente. As mudas são colocadas sobre os canteiros, conforme desenho estabelecido anteriormente.
Adubação dos canteiros com termofosfato, farelos e composto de madeira da poda urbanana.

Canteiro da esquerda adubados e com cobertura morda de poda de árvores, e canteiros centrral e da direita ainda descoberto, só com adubação.


Irrigação para o plantio de mudas de hortaliças.

Agricultor ecológico Valdir Martins instrui graduanda de Agronomia para o plantio de hortaliças na agricultura sintrópica.

Plantio de hortaliças em consórcio, conforme planejamento da agricultura sintrópica.

Detalhe do sistema de plantio de maniva de mandioca e maravalha da poda de árvores como cobertura morta.

Detalhe das espécies distribuídas no canteiro.
Horta sintrópica com consórcio de hortaliças cujo planejamento segue o arranjo sucessional: maior estabilidade ecológica e impacto reduzido ao solo.

Detalhe de um módulo já formado, em que as alfaces estão na época de colheita dando lugar às brásicas e ao tomate.
Os mutirões agroflorestais, momento sagrado na nossa formação, é o momento onde ocorre o nivelamento e troca de conhecimento entre os participantes, cada um contribui com o conhecimento que traz de sua caminhada pela Vida: estudantes com pouca lida na terra, mulheres que enfrentam, às vezes pela primeira vez, a labuta na terra, crianças que se encantam com a possibilidade do dedinho plantar um serzinho a espera de florescer, Experientes mãos que demonstram a que vieram. Todo mundo aprende e ensina um pouco. É a sensação de nos unir à natureza. Saindo da discussão mental e pelo esforço físico, alcançando o preenchimento por Deus. Vencer a meta estabelecida de quantos metros de canteiro preparar, manejar ferramentas, vencer o cansaço, se desarmar e conversar entre seus pares com o coração aberto. É momento único nesta Escola da Vida, que esta forma de trabalho coletivo nos proporciona.

Construção permacultura da escola de agroflorestas e Agroecologia do Sítio Ecológico
 Fome alcançou limites indesejáveis na taxa de glicemia entre um dos participantes, é hora do banquete, que, graciosamente, a filha do Valdirzinho, proporcionou. Comida caipira, vinda da roça. Fruto do trabalho humano que alimenta o corpo e a alma. Um frango assado inesperado se uniu no almoço colaborativo. O banquete estava completo e saciou a fome dos alunos-aprendizes. Gratidão à família deste agricultor que com simplicidade e amor vem se tornando em uma Escola do Saber Agroecológico, a agricultura que respeita a vida e a Deus.
É fim de feira, o anoitecer vem chegando, os participantes se reuniram a beira da construção em adobe da estrutura da Escola da Vida do Valdirzinho à espera de mais um mutirão. De mãos dadas agradeceram ao Criador pelas horas de labuta, aprendizado, troca de olhares e o sentimento que vale apena ser agricultor e manejar a mãe Terra com sabedoria, sem veneno. Sentindo no peito que o dia tinha sido ganho, se despediram de mais um módulo do curso de formação em agroecologia e subiram mais um degrauzinho do Saber.

 Diversidade de espécies alimentícias: 
Banana figo.

Banana prata.

Citrus.

Tomate.

Alface crescpa com brássica.

Ervilha em rotação com tomate.

Salsinha com brássica.

Adaptação para blog - Antonio C. Pries devide - pesquisador da APTA Polo regional Vale do Paraíba
Imagens: Rodrigo Dametto, Anna Cláudia Leite e Paulinho do Assentamento Conquista, Tremembé/SP. 


12 de ago de 2019

CONSTRUÇÃO DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS NO ASSENTAMENTO CONQUISTA, EM TREMEMBÉ - SP


RELATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE REALIZADA NA CAPACITAÇÃO PEDAGÓGICO-PROFISSIONAL EM AGROECOLOGIA (APTA/INCRA-SP) NO PROJETO DE ASSENTAMENTO CONQUISTA, TREMEMBÉ – SP
DIA 18-JULHO-2019: PERÍODO DA TARDE, PA CONQUISTA
DIA 24-JULHO-2019: PERÍODO INTEGRAL, POLO REGIONAL DO VALE DO PARAÍBA.
                           José Miguel Garrido Quevedo, Engenheiro Agrônomo, Perito Federal Agrário, Membro do Setor de Meio Ambiente e Recursos Naturais do INCRA - SP
                                 Verônica Andressa de Castro, Estudante de Graduação do curso de Engenharia Agronômica da FCA /UNESP – Botucatu

Janaina, sua filha e Verônica observam a área que receberá o primeiro Sistema Agroflorestal comandado por mulheres no Assentamento Conquista de Tremembé - SP.
1.      APRESENTAÇÃO

A seguir está o relato da atividade conduzido pelo servidor José Miguel Garrido Quevedo, do INCRA-SP, com a pretendente a ser assentada Janaína Cristina Cora Santos Anacleto, ao lote 13, filha do assentado Acácio dos Santos, irmã do Bruno Cora dos Santos, no Projeto de Assentamento Conquista em Tremembé – SP, do qual tem como finalidade apresentar o sistema agroflorestal proposto no território de domínio e o conflito de gênero observado apresentado na introdução deste relatório e sua resolução, vencendo este obstáculo, levando ao empoderamento da mulher.

2.      INTRODUÇÃO

Nos lotes da Janaína e a Dona Toninha, observou-se um conflito acerca de quem controla e estabelece regras dentro do lote: a palavra final do que produzir e de como produzir é dada pela figura masculina. Observou-se um claro conflito entre gêneros em relação a questão da submissão dos anseios da mulher ao mando do marido. Ambas mulheres sonham e abraçam a agroecologia: a Janaina os sistemas agroflorestais e a Dona Toninha a herança da agricultura natural passada pelo seu pai, o Sr. Fidélis. Enquanto um marido trilha o saber do cultivo orgânico de tomate para processamento de molho de tomate artesanal por uma agroindústria certificada da região o outro se adequa ao fornecimento de couve ao varejo (supermercado), com a couve minimamente processada, higienizada e finamente cortada em maquinário próprio, e ao mercado institucional governamental (presídio).
Ficou evidente que a voz da mulher não é respeitada. Enquanto uma é empreendedora de geleias agroflorestais, se limita a olericultura de subsistência, em que o sistema agroflorestal apresenta como carro-chefe a vinagreira ou hibisco, do qual cresce como um “puxadinho da casa principal” (sistema produtivo do lote), a outra é uma produtora de sistemas agroflorestais com produção de frutas da mata nativa, como o cambuci, que crescem nas bordas do sistema produtivo comercial, tangerinas em declínio e extermínio, lichia, goiaba vermelha de mesa, mandioca e pupunha como cultura futura.
Enquanto discutíamos, o olhar perdido no chão revelava submissão de uma ao marido, enquanto outra ficou sem atenção plena devido a interrupções feitas pelo marido. Causou-nos estranhamento, pois discutíamos o sonho de vida produtiva daquelas mulheres.

3.      APRESENTAÇÃO DO SAF

3.1  Apresentação do SAF da Janaína
A elaboração dessa etapa se deu em dois momentos. Uma conduzida pelo biólogo Thiago Coutinho e pela historiadora Mariana Pimentel, ambos candidatos ao projeto de assentamento Egídio Brunetto de Lagoinha-SP. 
Thiago Coutinho e Mariana Pimentel - do mato ao prato - uma dinâmica interdisciplinar no planejamento de SAF, no aproveitamento de produtos na culinária caipira regional.
Uma dinâmica conduzida com maestria: propuseram primeiramente a lista de espécies possíveis para o projeto de produção de geleias artesanais, sugeridas entre os monitores e o conhecimento da agricultora. 
Elaboração de relação de espécies de plantas de serviço (adubos verdes).

A outra etapa definiram quais plantas lenhosas ou herbáceas prestam esse fim e que sejam de conhecimento da agricultora, realizando assim uma lista de 22 espécies e a classificação do estrato de cada planta, ou seja, quem é emergente, estrato alto, estrato médio e estrato baixeiro, desvendando-nos o mistério do consórcio entre as plantas. 
Elaboração de relação de espécies arbóreas multiuso.
O terceiro ponto estudado foi o uso de cada planta, indicando as plantas que serviriam para serviço, como adubadeira ou fornecedora de lignina e celulose para o sistema. O quarto ponto tratou-se a finalidade de cada planta sugerida na lista de espécies, se é para consumo de subsistência, para o mercado in-natura ou se prestam para o processamento de geleias artesanais. 
Identificação de cada espécie arbórea e sua respectiva aplicação no sistema agroflorestal.
Essa discussão foi interrompida devido a compromissos externos, comprometendo-se então a formulação do designer do sistema agroflorestal que foi adiada para outro dia, sendo competência deste servidor, da estudante e do assentado Paulo Luis Pinto, todos participantes da Capacitação Pedagógico-Profissional em Agroecologia (APTA/INCRA-SP). Na hora e dia marcado partimos da lista de espécie indicados no dia anterior. Primeiramente, fomos até o território agroflorestal e verificamos que a área media 14 m por 60 m. No desenho do SAF, iniciou-se pelas beiradas seguindo as duas linhas iniciais já instaladas em campo: uma apresentava vinagreira como carro-chefe e tefrósia como adubadeira. Discutiu-se a questão das árvores nativas de grande porte que formarão o sistema agroflorestal. Quatros espécies foram escolhidas: Cambuci, Araçá-boi, Caja-manga e Grumixama, em que foi estimado como 36m² ocupados por planta adulta levando-se a conclusão que essa linha de diversidade central ao sistema agroflorestal possuirá 10 plantas adultas. Como na área já existem três espécies já instaladas (dois figos e uma amora-preta), concluiu-se que a linha de Diversidade terá 7 plantas fornecedoras de inflorescências e folhas para produção de geleias artesanais e 3 ipês nativos já instalados.
Araçá-boi, uma das frutíferas nativas de grande potencial econômico em produção no PA Conquista de Tremembé.
O carro-chefe do momento atual, qual seja a vinagreira fará parte das duas linhas laterais ao sistema onde são cultivadas uma linha carro-chefe e uma linha adubadeira, outra linha carro chefe e mais uma linha adubadeira. São 4 linhas de carro chefe nesse sistema. Estimou-se 300 plantas matrizes fornecedoras de flores para a produção de rico néctar de sabor cítrico. Há ainda a possibilidade no meio das quatro plantas o cultivo de uma adubadeira, a mamona preta, por exemplo e uma frutífera de pequeno porte como a pitangueira, por exemplo. Cada canteiro do consórcio de carro chefe mais adubadeira será cultivado por equipamento mecânico formador desse “canteiro” de 1 metro. Entre esses canteiros tem uma entre linha em baixo relevo onde o pisoteio é intenso, a entre linha de 0,20 metros e há uma “franja” que será cultivado com olerícolas, como a couve e o coentro, com espaçamento de 0,40 metros entre plantas. É interessante notar que cultivados em linhas homogêneas na beirada do canteiro onde como está na “franja” do pisoteio  e passagem permite as operações de controle cultural para doença da couve e colheita dos maços de couve e de coentro com facilidade e devem se desenvolver bem à sombra das adubadeiras e a do carro chefe vinagreira ou chamada hibisco. Restou-nos dois canteiros laterais às plantas nativas para o cultivo de plantas, fornecedoras de geleia, rasteira e algumas planta adubadeira de pequeno porte para fornecimento de folhas para a cobertura do solo para o canteiro das plantas rasteiras para geleia ou as mudas da linha de diversidade. Observou-se que nesse sistema a adubadeira de maior porte nas linhas de diversidade será a mamona preta. Faltou-nos conhecimento para sugerir plantas adubadeiras de menor porte. O certo é que conseguimos montar as plantas estruturantes desse SAF. Salienta-se que houve redução do número de espécies sugeridas no dia anterior, porém pareceu-nos que uma adequação da proposta original, mais real e mais viável de acontecer. Ao lado das nativas sobrou um espaço de canteiros rasteiros que serão cultivados como os canteiros de subsistência da horta ao lado, só que com o cultivo de plantas com a finalidade de produção de geleia, com exemplo destes tipos de plantas foi sugerido o physalis e cubiu. São culturas anuais sendo cultivadas até as árvores de frutíferas crescerem e fazerem sombra impedindo então o cultivo destas anuais.
Sementes da biodiversidade utilizadas por Thiago e Mariana na implantação dos SAFs no Pré Assentamento Egídio Brunetto em Lagoinha-SP.
A planta sugerida para o sistema como adubadeira de grande porte será a mamona selecionada, ou seja, a qual não estoura quando madura, impedindo a sua proliferação descontrolada. Conseguida na APTA – Polo Regional Vale do Paraíba, sede de nosso curso de especialização. No dia 24 de julho, do qual houve vagância de atividade, apresentei o mundo maravilhoso das possibilidades pesquisadas por este divulgador da Agroecologia, a ela, suas filhas, um participante externo, indicado pelo biólogo Thiago, monitor do módulo do curso no Projeto de Assentamento Conquista em Tremembé e da filha e neta de uma das pesquisadoras da APTA, que está sendo introduzida neste mundo maravilhoso do Sistema Agroflorestal.

  
3.2  Apresentação da APTA – Polo Regional do Vale do Paraíba
O dia iniciou com a apresentação das pesquisas desenvolvidas no Polo Regional, pela Diretora Técnica de Transferência de Tecnologia deste importante instituto de divulgação de pesquisas para a agricultura, em particular, para a agricultura familiar.
Conhecemos a pesquisa inédita no país de controle de microrganismos patogênicos pelos hidrolatos. Os hidrolatos são um subproduto da extração de óleos essenciais de plantas fitoterápicas e um mundo aberto para investigação, seja como elixir de aroma aos alimentos, seja como controle de crescimento de patógenos de forma totalmente natural.
Conhecemos a mandala, vitrine viva, das plantas medicinais, coleção de plantas sagradas pelo seu efeito na cura no ser humano. Lá nos encantamos com os cheiros e texturas das folhas. Como estávamos acompanhados das crianças nesta atividade, podemos descer ao nível do entendimento destas criaturinhas sapecas e caminhando entre os canteiros, podendo tocar e alisar algumas folhas, com o cuidado precioso de não danificá-las. É surpreendente como este jardim dos perfumes é diversificado.
Já no território das Plantas Alimentícias Não Convencionais - PANCs, fomos recebidos pela encantadora técnica de apoio que nos apresentou seus canteiros de cultivo e mostrou-nos as sobreviventes do inverno, quais sejam, a capuchinha, o jambu, do qual é conhecida por ser a amortecedora dos lábios, muito utilizada na culinária nortista deste país. A taioba, meio amarelecida também resiste. A bertalha, sempre majestosa, o peixinho ou lambari,  pneumo-planta, indicada para fumantes e até o chuchu-de-vento, utilizado na culinária, para ser preenchido com gostosuras, como arroz com carne moída. O viveiro trás as mudinhas que, como um berçário, são nenês a espera de um canteiro para nos alegrar e ocupar. É tempo de preparo de solo, descanso da terra e da vida. Canteiros preparados, elevados no relevo do terreno para não acumular água, cobertos com cobertura morta, as bandinhas do feijão preto colhido, no sistema de plantio direto após adubação verde de leguminosas e sorgo granífero, utilizado nas confecção de vassouras piaçavas  pelas mãos hábeis do mestre auxiliar de campo, que como a técnica que nos orientou, são os braços e pernas dos pesquisadores científicos deste Polo Regional. Foi-nos apresentado o coração latente do Polo, as garrafas de sementes crioulas que serão semeadas na safra seguinte e matrizes de raízes, que abaixo da terra, são concentradoras de energia, vitalidade e saúde, como a cúrcuma e os diversos tipos de araruta, entre outras foram as vedetes do ensinamento. Cabe ressaltar ainda, o cará arbóreo, utilizadas nos SAFs, que sendo trepadeiras, crescem feito chuchu, que no manejo do SAF, com o corte e arrumação da mamona, chovia como pencas de luz sobre nossas cabeças entusiasmadas com o manejo da natureza.
Hora do almoço, o panelão de triguilho, trazia o kibe vegano, nome chic, para denominar “come-se o que têm” com classe, pois nas mão de um cozinheiro, se transforma numa maneira de misturar os sabores da cozinha, vai bem com banana-da-terra e canela, até repolho refogado com alho e sal himalaio, como foi o caso. É comida que satisfaz e sustenta a vida.
Fui surpreendido pela alquimia do labor coletivo, o almoço simplório foi transformado em banquete, com a contribuição generosa dos participantes, brotou o macarrão integral, o molho de tomate natural, temperado com maestria e até uma salada com alface, beterraba e uvas passas. Salada de frutas e manga. Brilho no olhar das crianças, que repetiam pratos iguais doces de enfeito. Até o cãozinho manco aguardava a ração nutritiva do dia.
À tarde, mesmo com a sonolência após o almoço, fomos visitar os SAFs da unidade experimental da vida. Iniciamos adentrando pelas ruas pouco visitadas, onde a Natureza é quem manda, árvores de 50 anos, mostram seu poderio e majestade. Interessante notar, que faz cerca de divisa com o mestre das vassouras piaçavas e do pilão de tronco. Parecem que fazem reverência a seu quintal agroflorestal que tem na cerca viva a divisa de seu território de mando. Há também um detalhe importante, algumas árvores regenerantes fazem uma pequena linha, tênue, de transição entre o que é natureza bruta do que é natureza manejada.
Chegamos ao território das PANCs sob regime agroflorestal, solo preparado a espera de nova explosão de vida. Só o “zíper” parece resistir ao tempo de renovação, a fileira em SAF de banana, orai-por-nós e mata raton seguem intactas majestosas, apenas as folhas do mata raton (GLIRICÍDIA), mostram que é tempo de inverno.
Aleias com solo preparado, abundante matéria orgânica sob o solo, os restos culturais da safra que passou, renovação em andamento. Contrapondo a esta paisagem, sempre verdes e lindas, as leguminosas de inverno estão do auge do desenvolvimento, enchendo seus cachos de sementes com Vida e Energia.
Aleia da leguminosa arbórea gliricidia (adubação verde), banana e ora-pro-nóbis.

Fitomassa de gliricídia alimentando a terra entorno das bananeiras e ora-pro-nóbis.

Vimos vegetar o território do mestre, mencionado anteriormente, as ramas verdes de batata doce, as folhas verdes da mostarda e até um pé perdido de serralha parecem ser o berço sob o sol de inverno, tem na localização da paisagem, área limite do frescor da terra da APP, e o gramado em volta, o esplendor do crescimento.
Chegamos ao limite da área experimental: os SAFs regenerativos selados pelo isolamento proporcionados pelo boldo do chile. Interessante notar que a agrofloresta resiste ao período de escassez de água com resiliência devido a abundante cobertura de palha: caules de banana cortadas ao meio, restos de folhas caídas das folhas caducas nutrem as plantas neste tempo de seca e frio. É o papel da serapilheira sabiamente manejada. Importante notar que o cordão de isolamento, o margaridão encontra-se ceifado, em brotação, no verão impediu a fuga da umidade e proteção contra a invasão das sementes da braquiária, agora no inverno permite a entrada do sol aconchegante, que garante aquecimento para o sistema agroflorestal.
Seguimos o caminho de volta, percorrendo o corredor das áreas de cultivo em faixas e o SAF em desenvolvimento no momento, escola do manejo agroflorestal atual. Duas linhas de diversidade foram propostas: banana, como adubadeira e produtora de cachos de até 31 quilos, mata raton como adubadeira, a espera de poda para o início da safra de verão, e palmito, como cultura do futuro. Uma linha de diversidade com árvores frutíferas de menor porte e a madeira de extração de óleo macaúba, em teste no Polo. E não podendo ser esquecido, os troncos ceifados rentes ao solo da mamona preta, especialmente selecionada para sistemas agrícolas, já que não estoura em campo e tem sua dispersão controlada, que serviram de adubação folhosa, já completamente desaparecida do sistema e os troncos da mamona, detalhadamente colocadas rentes ao solo, prontas para entrarem em decomposição. Os rastros do cultivo da mandioca deixaram sua marca, que devido ao solo seco, ainda não possuíram umidade suficiente para vir à luz.
Um breve relato sobre o território do ilustre pesquisador do Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes, com sua condução de poda das frutíferas de inverno. Nos mostram que as plantas já começam a formar a taça que facilita a colheita e é abundante em frutos.
É hora de partir, despedi-mo-nos da filha da pesquisadora e sua neta, que perguntada de que se gostou do dia, teve no sorrisinho a resposta, indicando que eu tinha ganhado o dia, levei de volta a Janaína e suas filhas, ocupado com o horário marcado de retorno com o marido.
Chegando lá, tive a felicidade de conhecer o Sr. Acácio, o pai lutador que mesmo sem ter esposa, lutou pela terra, sofreu sua perda da esposa, criou os filhos e sobreviveu como pôde.
Um fato mudou à mesa do café da tarde, onde deixei de saborear as geleias do outro dia, para avançar sobre tacos de queijo mineiro com café. Seu marido estava mais deslumbrante, mais calmo, parecia que havíamos feito uma engrenagem presa soltar. Ele não estava raivoso, como no dia que desenhamos o SAF da esposa. Sugerindo até como dominar a braquiária, roçando-a, reservando-a e com o preparador de solos manuais que eles possuem, erguer os canteiros para receber as mudinhas das gostosuras. Para posterior recolocação da palhada da braquiária por cima dos canteiros.
Vencemos uma resistência, começa o mando da mulher em seu território. Ficou combinado então, que no dia do SAF de Tremembé, esticaremos o plantio por lá, em mutirão.
Partimos para o repouso merecido, com o coração mais leve, auxiliamos num processo sociológico familiar, encaminhamos para a resolução de um conflito e se Deus a sim permitir, fazer florescer mais uma referência na Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba.




  • Adaptação para blog: Antonio Devide - Engº Agrônomo e Pesquisador do Polo Regional Vale do Paraíba - APTA
  • Imagens: José Miguel Quevedo, Verônica Castro, Antonio Devide



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RELATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE REALIZADA NA CAPACITAÇÃO PEGAGÓGICO-PROFISSIONAL EM AGROECOLOGIA (APTA/INCRA-SP)  NO PROJETO DE ASSENTAMENTO CONQUISTA, TREMEMBÉ – SP

                           José Miguel Garrido Quevedo, Engenheiro Agrônomo, Perito Federal Agrário, Membro do Setor de Meio Ambiente e Recursos Naturais do INCRA - SP
                                 Verônica Andressa de Castro, Estudante de Graduação do curso de Engenharia Agronômica da FCA /UNESP – Botucatu

A oficina no projeto de assentamento Conquista em Tremembé (135 km a nordeste de SP), realizada no dia 2 de julho de 2019, na propriedade da agricultora Deise Alves, contou com aproximadamente 12 pessoas, sendo 6 agricultores assentados, destes 4 pioneiros e 6 estudantes internos, que estão frequentando a capacitação em agroecologia promovida pelo APTA - Pólo Regional do Vale do Paraíba e pelo Serviço de Meio Ambiente e Recursos Naturais do INCRA em São Paulo.
Primeiramente, ocorreu a apresentação dos participantes, em que cada um indicou como gostaria de ser lembrado ou reconhecido. Em seguida, foi servido o café de boas-vindas aos participantes, com batata-doce cozida no vapor e depois assada em forno, embrulhada em papel alumínio, geléias de araçá-boi, cajá-manga, tamarindo e hibisco, arroz com vinagreira, lasanha de abobrinha, macarrão, maçãs e bananas assadas e algumas frutas frescas, como cajá-manga, araçá-boi, banana-prata da variedade conquista, oriunda da APTA e melancia. Houve troca de diálogos entre os participantes, quanto o sabor das geléias, com sabor levemente adocicado e cítrico.

Araçá boi.
Cajá manga.

Tamarindo.
A atividade ocorreu no packing house da propriedade e houve representantes do governo federal, do governo estadual, entidades internas ao assentamento que auxiliaram ou auxiliarão no desenvolvimento do assentamento desde sua origem. A saber, ITESP, INCRA, alunos do curso APTA-INCRA, estudantes de agronomia e destacou-se a presença de agricultores assentados de quatro gerações, os pioneiros, os antigos, os filhos de assentados e dois netos, dos quais ficou evidente o brilho no olhar, fazendo-nos deslumbrar qual o futuro do assentamento, o que queremos para o projeto de desenvolvimento e que assentamento queremos para 2030.
O depoimento daqueles jovens demonstra dados aos participantes-aprendizes e professores, emocionando a todos pela firmeza e convicção que eram plantadores. A conversa iniciou com dois flip chart, um bloco de papel no alto de anotações-síntese da cor branca e um bloco de papel no chão de cor marrom, no qual foi utilizado como rascunho para realizar o desenho da paisagem da área no final do presente módulo.
Iniciou-se uma retrospectiva realizada através de perguntas que foram respondidas pelos agricultores assentados pioneiros em relação a como foi a luta pela terra, a origem do assentamento em Iperó (próximo a Sorocaba), os dois acampamentos formados e a informação que atualmente no local de origem existe o assentamento Ipanema em Iperó, uma unidade de conservação FLONA e um território da Marinha do Brasil, no qual foi o local escolhido pelos agricultores para formar o berço de luta, acampamento dos sonhos daquelas 400 famílias sem-terra.
Informou-se também que atualmente a Marinha compõe o Conselho Consultivo da Floresta Nacional – FLONA, que auxilia na conservação daquele importante bioma.
O início do projeto de assentamento em Tremembé, sob a denominação Conquista, foi em 19 de fevereiro de 1994. Durante seis anos, houve a luta pela infra-estrutura até conseguirem sair do barraco de lona e estar sob o teto de casas de alvenaria simples com luz e água. Este tempo evidenciou o limite físico da área de Petrobrás conquistada: o subsolo possui xisto, resultando presença de óleo e gosto na água oriunda de poços cacimba profundo e principalmente poços semi-artesianos. O limite físico foi vencido com o aprendizado de até que ponto do lençol freático a água apresenta óleo daquele “pré-asfalto”, material de origem deste insumo industrial e importante item de aglomerados urbanos.
Nos anos 2000, ocorreu a presença da Associação de Produtores de Agricultura Natural - APAN, lideradas pelos doutores Shiro Miyasaka e Kunio Nagai, em parceria com técnicos da ITESP, na divulgação dos princípios da agricultura natural, o incentivo a produção de hortaliças, o uso de extrato pirolenhoso oriundo de restos de destoca de eucalipto do antigo horto da FEPASA que era presente na área, o uso de fino do carvão, a produção em estufas de produtos orgânicos no sítio local sede do nosso evento, a importância que a agricultura dá ao rendimento do solo, a fertilidade que vem com o uso de calda “líquido abençoado” e a memória do Sr. Fidélis, pai de uma das participantes, que emocionou aos presentes daquela época, por relembrar o pioneirismo e visão que aqueles “mestres” plantaram no DNA do assentamento.
Paralelo ao crescimento de feiras diretas aos consumidores, a luta por angariar melhores preços pelo produto orgânico, o total desconhecimento do mercado pelo produto diferenciado, foram desafios que aqueles produtores enfrentaram. A fruticultura e a mandioca do tipo “amarelinha”, iniciada pela ITESP, foram se firmando no início dos anos 2000, com o carro-chefe do assentamento, a tangerina ponkã, que teve auge em 2005 a 2013. Relatou-se que saiam caminhões-baú lotados com a fruta. Quando começaram a ocorrer casos de greening ou huanglongbing (HLB), tornando a produção inviável e levando ao arranque da maioria dos pomares de tangerina ponkã e demais tangerinas produzidas no assentamento. Importante salientar que a fruta ainda existe no assentamento, mas fadada a exclusão, já que a doença não há cura, só o extermino é a solução. Um pezinho de tangerina doente no lote do nosso evento no assentamento é amostra viva daquele período.
Importante destacar que o fracasso da produção da tangerina ponkã, evidenciou o manejo com o mercado, o aprendizado de como lidar com a desonestidade dos atravessadores, os quais pegam a mercadoria do agricultor e dão cheque sem fundo, normalmente com um prazo, uma data futura, e o lastro na vida a comercialização foi o aprendizado, e, também, fixou-se no DNA produtivo do assentamento.
Em 2013, sob governo popular responsável por uma nova onda de incentivo a produção, o Programa de Aquisição a Alimentos – PAA e o Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE e o traquejo com o mercado no atacado e não mais no varejo foi o aprendizado.
O PNAE e o PAA fizeram parte da estratégia Fome Zero, dos quais trouxeram incremento à renda dos pequenos produtores rurais, garantindo escoamento da produção através da distribuição dos alimentos comprados pelo governo às entidades especializadas em atender crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade. Há de se destacar que o PAA esteve vinculado com incentivos ao empoderamento das mulheres no lote, os quais agregam valor à produção familiar, por exemplo, através da produção de pães, bolos, compotas e geléias, fornecem ao PAA ou PNAE e ainda o excedente é vendido no assentamento ou em estabelecimentos, gerando incremento na renda da família.
A comercialização feita diretamente com os consumidores, com a necessidade de mais de uma feira por semana, foi substituído pelo atendimento ao atacado, alavancando a produção de folhosas, legumes secos e raízes de mandioca como carro-chefe do assentamento. Vale salientar que em contradição ao sistema agroflorestal de olericulturas que é a técnica melhor adaptada ao vendedor de feiras livres, pois se baseia no plantio de muitos vegetais ao mesmo tempo, mesclando vários canteiros, com espaçamentos entre plantas diferentes, em apenas um quando há a exigência de atender a demanda de um intermediário que encomenda um determinado número de caixas de alface por semana, por exemplo.
Evidenciou-se dois sistemas de produção atualmente no assentamento, um mais intensivo em capital humano, com maior uso de mão-de-obra, a produção de folhosas, tendo como carro-chefe a alface. Outra menos intensiva, com a produção de legumes e raízes, como abóbora e mandioca. Por outro lado, a produção de fruticultura, como alguns pomares de lichia, vem despontando como possibilidade. A criação de gado de corte e a piscicultura apareceram como oportunidade de menor expressividade.
Também foi destacada na retrospectiva a idade dos autores sociais nesta trajetória em 1994, na qual a média era 40 anos, e hoje, em 2019, na qual a média é de 65 anos, nestes 25 anos de existência deste território de luta, de território reformado entregue a agricultura familiar. Importante destacar que entre os alunos havia 3 filhos de assentados que estão iniciando sua trajetória produtiva.
Partiu-se então para uma conversa sobre a apresentação do tema, a agroecologia, objeto do nosso curso de formação, quais os princípios que norteiam o sistema agroflorestal. O primeiro autor do presente relatório procurou traçar um paralelo entre o projeto de regeneração e restauração hoje em voga no meio ambiente e os princípios da agroecologia na agrofloresta, o papel de cada categoria de plantas no sistema agroflorestal.
            Primeiro destaque foi à definição de pioneira, não pioneiras e plantas adubadeiras. Estas plantas têm a função de promover a cobertura do solo, o fornecimento de nitrogênio e carbono ao sistema. As pioneiras do sistema de restauração vegetal do meio ambiente são os adubos verdes no nosso sistema e as não pioneiras, as que ficam mais tempo no sistema, como exemplo desta categoria de plantas que entram no sistema pode se citar a mamona, mata-raton e feijão-guandu.
            Uma atenção especial deve ser dada as plantas espontâneas ditas como pioneiras na regeneração natural, como a vassourinha, por exemplo, que normalmente são melíferas e devem ser cuidadas e incentivadas seu desenvolvimento nos sistemas agroflorestais, visto que atraem polinizadores.
            A outra categoria advinda do sistema de restauração do meio-ambiente são as plantas de preenchimento, nos quais são estudados como a “pele” do solo, ou seja, que cobrem totalmente o solo, como exemplo a braquiária nas pastagens, a trapoeraba nos canteiros de hortaliças, a cúrcuma e araruta nos sub-bosques de sistemas agroflorestais regenerativos e o feijão-guandu na permacultura. Há também as plantas de diversidade, plantas nativas fornecedoras de produtos madeireiros, como o guanandi e o mogno africano, de frutíferas, como a bananeira, que está no sistema agroflorestal em duas categorias, como adubadeiras e como fornecedora de frutos e abacate, acerola, pitanga, por exemplo.
            Por fim, há as plantas medicinais, como o guaco, e as plantas alimentícias não-convencionais, como a orai-por-nós. Não esquecendo também de todas as plantas nativas, que tem função zoocórica, de beleza cênica como o guapuruvu, as plantas de valor histórico como os palmitos, o pau-brasil, e as plantas com valor sentimental, para o autor, como a moringa. Devem ser as plantas-chefes dos sistemas agroflorestais, pois têm valor econômico, ambiental e simbólico.
  Foi apresentada finalmente a necessidade dos cordões de isolamento de cada fragmento produtivo nos sistemas agroflorestais de regeneração, dos quais funcionam como “zíperes”, ou seja, impedem a infestação de branquiárias, a perda da umidade, promovem a atração de abelhas e o afastamento de insetos com potencial maléficos em sistemas desequilibrados. Como exemplo de plantas que foram testados na APTA para este fim, pode se citar: o margaridão, boldo-do-chile e o feijão-guandú. Foi proposta a bertalha em caramanchão para sistemas agroflorestais, em que os carros-chefes são as plantas medicinais, seja como planta alimentícia não-convencional, seja como fitoterápico. E o mira nos sistemas nos sistemas agroflorestais usados na olericultura.
   Foi dado ênfase na apresentação deste sistema a produção de hortaliças consorciadas e o uso de cobertura-morta como possibilidade de produção.
  Debate interessante entre os participantes surgiu entre os agrofloresteiros e os produtores convencionais de monocultura da alface produzida no assentamento.
   Hora do almoço, alguns participaram do preparo do alimento do dia. Destaque dado ao esposo de uma das baianas, que foi recomendado pela esposa, participante do módulo anterior oferecido pela APTA, a aprender a fazer alimentos saborosos. Mais uma vez foi respeitado a possibilidade do não fazer, do sentir o aroma advindo do fogão.
            Após isso, foi realizada a atividade de campo em que alunos graduandos na capacitação APTA-INCRA foram verificar o estado do solo, da área sede do evento. Como histórico da área, foi descrito que aquele solo recebeu a agricultura orgânica em estufas, evidenciando a alta produtividade e que a última cultura foi a mandioca de mesa e atualmente a cobertura é a braquiária e o solo preparado pela gradagem. Constataram que o solo apresenta adensamento, sem grumos estruturados, pouca presença de minhocas, um horizonte superficial enegrecido e textura arenosa.          
A proposta inicial para a área de SAF no lote da Deise Alves é a de iniciar o sistema agroflorestal com o plantio de adubação verde do tipo mix, misturando sementes de leguminosas e gramíneas, como o milheto. Será necessário mais um controle da braquiária. É evidente a necessidade de nutrir e estruturar o solo para posterior implantação de alguma proposta de sistema agroflorestal.
    A caminhada de observação da paisagem seguiu e chegou à porção do solo destinado ao plantio de abacaxi, com solo já preparado e sem braquiária que pode indicar uma forma de preparo de solo para o sistema descrito anteriormente. Avançando para a área de preservação permanente, ao longo do plantio das lichias com 19 anos, há uma área com braquiárias onde se propõe o plantio de plantas medicinais em mandala, tem de um lado as lichias e no outro lado o capim-napier, selando a área ambiental.
    A caminhada terminou na bacia de acúmulo de vertente, uma lagoa, sem a formação de córrego, apenas uma depressão do terreno onde houve acúmulo de água por olho d’água e acúmulo por chuva. É o território do meio ambiente. Encontramos uma cascavel morta pelo trator, evidenciando que é um território dos bichos.
     Às 15 horas, a proposta foi voltar à discussão para formulação da proposta de modelo de sistema agroflorestal para aquela porção destinada a implantação de sistema agroflorestal de referência para o assentamento.
    A proposta de cinco módulos pareceu-nos, por consenso, uma boa proposta de sistema agroflorestal. Foram definidas duas propostas, para os cinco modelos a serem implantados e elaborados até o final da capacitação APTA-INCRA.
   Primeiro módulo: trata-se de um SAF com produtos madeireiros, banana e palmito nas linhas de diversidade e no primeiro ano hortaliças como preenchimento, para o cultivo nas entrelinhas, e o plantio de cúrcuma a partir do segundo ano, também como cultura de preenchimento nas entrelinhas. Espaçamento entre plantas nas linhas de diversidade e espaçamento nas linhas das culturas anuais. Deverá ser definido pelos orientadores do curso.
   Segundo módulo: apresenta como cordão de isolamento a gliricídia (mata raton), que funciona também como não pioneira adubadeira. A cultura de preenchimento, na primeira entrelinha será o açafrão e na segunda entrelinha o gengibre. A primeira linha de diversidade será composta pelas plantas frutíferas nativas de maior porte, associadas à cultura de banana, como registro temos o baru (a castanha da caatinga ou do cerrado), o caju e o jenipapo, como sugestões de espécies. Como cultura de preenchimento na linha de diversidade, foi ainda proposto o feijão borboleta. A segunda linha de diversidade será composta por frutíferas de menor porte, sendo proposto: cambuci, urucum, mamão, abiu, uvaia, araçá e pitanga. Não se definiu se estas plantas de diversidade são duas linhas ou apenas uma linha, para cada tipo (frutíferas de maior porte e frutíferas de menor porte). Mais uma vez tornou-se necessário definir o espaçamento entre plantas na linha de diversidade e nas entrelinhas. Resta a definição dos outros três módulos restantes.
 
No final do evento, ficou evidente a gratidão àquele espaço que se tornou a escola de aprendizado da rede agroflorestal do Vale do Paraíba no assentamento Conquista em Tremembé – SP.