Este relato é uma sistematização de respostas sobre algumas questões direcionadas aos integrantes da Rede Agroflorestal sobre aspectos da produção, consumo e comércio de PANC e SAN (Figura 1).
Figura 1. PANC compõe a sociobiodiversidade, fortalece a saúde nutricional e a soberania alimentar. Fonte: Daniela Ferreira (assentamento Egídio Brunetto, Lagoinha-SP)
O objetivo deste artigo é fornecer um panorama geral sobre o cultivo, usos e potencialidades de comércio de PANC e os benefícios para a SAN.
Questões apresentadas aos membros da Rede Agroflorestal:
- Alguém do grupo da Rede Agroflorestal cultiva e/ou faz o uso sistemático de PANC?
- Informar quais são as espécies e como utiliza, se in natura
ou processada?
- Se gera renda, como é a venda? direta ao consumidor ou outra
forma? e o valor obtido com o(s) produto(s)?
Análise descritiva dos relatos:
Janaína Anacleto - Sítio Anacleto, Tremembé - SP. @sitio_anacleto
Produz PANC em sistema diversificado, em associação de cultivos hortícola e espécies perenes. Maneja com base nos princípios agroflorestais e agroecológico (consórcio, adubação verde e capina seletiva).
Consumo e comércio in natura:
- Peixinho (Figura 2 e 4)
- Almeirão roxo (Figura 2)
- Capuchinha (Figuras 3 e 6)
- Ora-pro-nóbis (Figura 5)
- Carne de jaca (Figuras 7 e 8)
- Flor azul (fada - cunhã) (Figura 9)
- Pitaya (Figuras 10 e 11)

Figura 2. Almeirão e peixinho (centro) Figura 3. Capuchinha. Fonte: Janaína Anacleto
No Instagram mostramos
como fazer ou compartilhamos colheita e dados sobre a produção e colheita. Usamos PANC para agregar nutrientes. O Peixinho é o mais querido (Figura 4).

Figura 4. Peixinho: PANC frita é a preferida. Fonte: Janaína Anacleto
Pitaya: vendemos bem. Às vezes faço geleia de pitaya.
Flor azul (cunhã): começamos agora. Estamos desidratando e testando receitas.
Nos hambúrgueres de shimeji: vai ora-pro-nóbis e cenoura.
Opção: kit suco verde com PANC. Ainda não faço, pois preciso diversificar o plantio. Ainda não tenho: Bertalha e Azedinha

Figura 5. Ora-pro-nóbis Figura 6. Caruru, beldroega, capuchinha. Fonte: Janaína Anacleto
Vendemos porções congeladas de carne de jaca desfiada de 500 gramas. Em dezembro/2021 fizemos 70 kg da carne de jaca desfiada e vendemos quase tudo, só restam uns 5 kg (Figura 7).

Figura 7. Salpicão de carne de jaca. Fonte: Janaína Anacleto
Figura 8. Canja de carne de jaca com muito açafrão (cúrcuma) e colorau (urucum). Fonte: Janaína Anacleto
Figura 9. Bolo de cenoura com ora-pro-nóbis. Calda com fada azul. Fonte: Janaína Anacleto

Figura 10. Soda de pitaya e limão. Fonte: Janaína Anacleto

Figura 11. Cheescake (video) com tofu orgânico e pitaia na massa. Fonte: Janaína Anacleto
Juliano Hojah da Silva - Sítio São Sebastião, Natividade da Serra - SP. @sitiodoaltodaserra
Figura 12. Detalhe da área de produção e quintal agroflorestal no entorno da moradia. Fonte: Juliano Hojah da Silva
Vende-se in natura:
- Peixinho R$3,00/maço
- Catalonia R$4,00/maço
- Almeirão roxo R$4,00/maço
- Azedinha R$4,00/maço
- Serralha R$4,00/maço
- Orapronobis R$4,00/100g
- Guaco R$4,00/100g
- Capuchinha em flor R$5,00/caixinha
- Boldo R$3,00/100g
- Batata
yacon R$8,00/kg
- Banana
vinagre R$4,00/kg
Saem pouco, mas como temos e manejamos, colocamos
na lista semanal e ajuda a formatar boas cestas. O peixinho as vezes conseguimos mandar para a CSA, aí são 30
clientes x R$5,00 (preço da unidade na CSA - maço um pouco maior): R$150,00 de uma só
vez.
Moatán Ribeiro Pinhal - Sítio Bico do Piu, Mogi das Cruzes - SP.
Basicamente vendo
as seguintes PANC in natura no litoral de São Paulo:
- taioba
- azedinha
- ora-pro-nóbis
- vinagreira
- peixinho
Tenho preferência pela azedinha pela facilidade de colheita,
plantio e quando o consumidor se permite experimentar misturado na sua salada
fazendo a vez do limão é ótimo. Mas isso é como toda PANC que temos que ter a
venda ativa.
Renato César Sbruzzi Portela - Chácara José Cândido, Caçapava - SP.
Eu não comercializo nada, mas gosto muito de cultivar
PANC.
Ganhei uma que também é conhecida como major-gomes em alguns
lugares, mas em Belém - PA onde é mais popular, me falaram que é conhecida como
carirú (Figura 13).

Figura 13. Major-gomes, também conhecido como fura-tacho em Minas Gerais por causa de suas raízes de reserva. Fonte: Renato Portela.
Aline Lopes Lima - Sítio Santo Antônio, Pindamonhangaba - SP
Ainda
não comercializamos mas produzo para consumo próprio e amigos:
- broto de bambu Phyllostachys (muito invasor que precisa manejo!) (conservas)
- coração de bananeira (conserva)
- vinagreira que vai bem (tirando quando são
atacadas pelas cortadeiras!) (in natura)
Figura 14. Touceira de bambu que maneja para coleta de brotos. Fonte: Aline.
Ainda não fez análise para formar preço, mas acredita que custaria em torno de (400g bruto):
- broto de bambu: R$10,00
- coração de banana: R$18,00
Pretende produzir para a venda na época das culturas ou até acabar o estoque.
Ana Lucia Martins - Sítio Toca do Tatu. Endereço: Rua Braz Armando de Souza, 270, bairro Marafunda, Ubatuba - SP.
Aqui em Ubatuba, as PANC estão chegando lentamente há algum
tempo. Já estão nas bancas da feira.
As preferidas do meu público são (Figura 15):
- Almeirão
- Taioba
- Peixinho
- Capuchinha
- Coração da banana
Percebo também um aumento na procura por chá, picão,
baleeira são bem queridos.
As PANC são de fácil cultivo e super nutricionais. Porém são mais fácil de cultivar e são perenes.
As
vinagreiras aqui também são bem conhecidas.
Gosto muito de enfeitar os buquês:

Figura 15. Preparo de PANC para formar buquês. Capuchinha, alcaparra da capuchinha (centro) e flores e brotos de abóbora (cambuquira). Fonte: Ana Lúcia Martins.

Figura 16. Saladas com PANC. Fonte: Ana Lúcia Martins.
Embrulhar (PANC) na taioba deixa o que está dentro protegido e a pessoa pode lavar a taioba e comer. Eu faço esses buquês, porque identifiquei, fazendo feira, que algumas pessoas tinham dificuldade de consumir um maço inteiro de rúcula, por exemplo. Levavam pouca verdura por isso, e não tinham a diversidade. Os buquês coloco quatro porções, uma folha, um tempero, um chá e uma PANC. Para duas pessoas é bem servido (Figura 17).
Figura 17. Buquê PANC embrulhado na taioba para não gerar resíduo. Fonte: Ana Lucia Martins.
Falando em jaca, estou com jaca dura na hora de colher. Se alguém interessar me chama no privado por favor.
Que bom que gostaram, agroecologia é Cuidado.
Kênia Bahr - CDRS - Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável, Ubatuba - SP
Não vendo, mas
produzo, coleto (e realiza estudos aplicados com culinária gourmet abrangendo diversas PANC) para consumo próprio e para distribuição aos amigos
e vizinhos.
Dentre as espécies, destacam-se:
- espinafre africano
- peperomia
- malvavisco (flor e folha)
- chaya
- urtiga
- quirquinha
- jambu roxinho
- caapeba
- bananinha ornamental
- urucum
- gardênia
- frutas nativas (diversas)
- rama de batata-doce
Partes não convencionais de plantas cultivadas:
- cambuquira de chuchu
- mamão verde
- jaca verde
- etc.
Preparo geleia
e tempero com algumas e também compotas de frutas com mel com outras.
Acompanho o trabalho
das comunidades nas feiras de Ubatuba e do pessoal do MST e, em geral, tem
bastante PANC nas bancas e nas cestas.
Algumas fotos de
produtos processados de PANC que faço em casa:
Figura 18. Biscoito de arroz e
erva-baleeira. Fonte: Kênia Bahr
Figura 19. Sorrentinos de massa de
pitaia e bertalha-coração. Fonte: Kênia Bahr

Figura 20. Pudim coberto com
compota de grumixama. Fonte: Kênia Bahr

Figura 21. Molho de araçá-boi e
pimenta verde para salada. Fonte: Kênia Bahr

Figura 22. Pesto de PANC variadas. Fonte: Kênia Bahr
Figura 23. Tempero pronto com PANC. Fonte: Kênia Bahr
Figura 24. Cheesecake de juçara
com calda de groselha-do-ceilão e flor de beijo. Fonte: Kênia Bahr
Uau !😋
Essa movimentação me lembrou de enviar uma informação aqui, para quem se interessar:
no início do ano passado foi fundada a Comunidade pelo Fortalecimento da Sociobiodiversidade da Mata Atlântica - Vale do Paraíba e Costa Verde, ligada ao Movimento Slow Food.
A comunidade (CSF) é aberta a qualquer pessoa que se identifique, estude, trabalhe ou se interesse pelo tema. Temos realizado pequenos eventos (virtuais e presenciais quando possível) como feiras agroecológicas, bate-papos, oficinas, etc, junto a diversos parceiros.
Caso alguém se interesse em integrar esse movimento, pode me procurar que eu envio mais informações. 🌱
Fonte: Kênia Bahr
Vinicius Pontello - Sítio Sagrado Coração da Terra, Estrada da Cachoeira, km 7, Bairro Dona Luciana, Gonçalves - MG
Aqui na feira de Gonçalves comercializamos Taioba, peixinho
e azedinha. Já ofereci tanchagem também e em outras épocas já ofertaram serralha
por aqui.
A azedinha é a mais comercializada.
Natalia Martín - @sitioflordarainha, São Luiz do Paraitinga - SP

Figura 25. Cerca viva em formação com ora-pro-nóbis. Fonte: Natália Martín 💚🙌🏼
Goura Lila Devidassi - Fazenda Nova Gokula, Ribeirão Grande, Pindamonhangaba - SP
Eu vendo:
- almeirão roxo
- ora-pro-nóbis
- major-gomes
- capuchinha
Alda Maria Amaral Santos - Sítio Betel, lote 14, Assentamento Egídio Brunetto, Lagoinha - SP
Comercializo e consumo PANC diariamente. Para mim as PANC são sinônimo de saúde. Só tenho uma CSA e ela consome bastante PANC:
- almeirão
- bambu (conserva)
- bertalha
- cabaça (doce)
- cambuquira
- capuchinha
- caruru
- confrei
- for de abóbora (geleia ou refogado, farofa)
- major-gomes
- mostarda
- serralha
- umbigo de banana (conserva)
E outros que fazemos o uso, mas não tinha o nome de PANC para minha mãe e avó. Para elas eram apenas as plantas nativas espontâneas. O interessante era que quando chegamos no local para morar não tinha nada e aí começou a nascer estas plantas maravilhosas que podemos e devemos usar na alimentação.
Resumo dos resultados
Total de participantes: 11 pessoas abrangendo quatro regiões e nove municípios (Figura 26)
Figura 26. Região e municípios representados na pesquisa sobre PANC. Fonte: Antonio Devide, 2022.
Figura 27. PANC relacionadas nos depoimentos dos membros da Rede Agroflorestal e agrupamento de partes utilizadas por frequências. Fonte: Antonio Devide, 2022.
Contribuíram com este relato:
- Alda Maria Amaral Santos - Sítio Betel, lote 14, Assentamento Egídio Brunetto, Lagoinha-SP.
- Ana Lúcia Martins - Sítio Toca do Tatu. Endereço: Rua Braz Armando de Souza, 270, bairro Marafunda, Ubatuba-SP.
- Aline Lopes Lima - Sítio Santo Antônio, Estrada Municipal Luiza Fernandes de Miranda, 300, Ribeirão Grande, Pindamonhangaba - SP.
- Antonio Carlos Pries Devide - Sítio Arco Íris. Endereço: Estrada das Borboletas, 4870, bairro Ribeirão Grande, Pindamonhangaba-SP.
- Goura Lila Devidassi - Fazenda Nova Gokula, Ribeirão grande, Pindamonhangaba-SP.
- Janaína Anacleto - Sítio Anacleto. Endereço: Assentamento de Reforma Agrária Conquista, Tremembé-SP.
- Juliano Hojah da Silva - Sítio São Sebastião (@sitiodoaltodaserra), Bairro Alto, Natividade da Serra-SP.
- Moatán Ribeiro Pinhal - Sítio Bico do Piu. Endereço: Estrada do Mombuca, caixa 10, distrito de Taiaçupeba, Mogi das Cruzes - SP.
- Natália Martín - Sítio Flor da Rainha, São Luiz do Paraitinga - SP.
- Renato César Sbruzzi Portela - Chácara José Cândido, AV José Cândido Sbruzzi 1003, Caçapava-SP.
- Vinícius Ribeiro Pontello - Sítio Sagrado Coração da Terra, Estrada da Cachoeira, km 7, Bairro Dona Luciana, Gonçalves-MG.
Sistematização, redação e edição: Antonio Carlos Pries Devide - Pesquisador científico - APTA - Polo Vale do Paraíba, Pindamonhangaba - SP.
Envie contribuições para o blog: antonio.devide@sp.gov.br