22 de abr. de 2021

Agricultoras da Reforma Agrária de Tremembé-SP apostam na Pitaia em Sistemas Agroflorestais

 

Por 

José Miguel Garrido Quevedo, Perito Federal Agrário do INCRA SP 

Antonio Carlos Pries Devide, Pesquisador da APTA - Polo Vale do Paraíba

Revisado por Verônica Andressa de Castro, discente de Agronomia da UNESP

 

 Experiência do Sítio Anacleto - Assentamento Conquista


Figura 1. Sistema irrigado em canteiros de hortaliças com cobertura morta de braquiária entre as plantas de pitaia em moirão de ferro-cimento (imagem Janaína Anacleto).

No Projeto de Assentamento de Reforma Agrária Conquista em Tremembé-SP, a agricultora  Janaina Anacleto do Sítio Anacleto trabalha em conjunto com sua família em uma produção diversificada e agroecológica, com a produção de frutas, cogumelos shimeji, olerícolas e suinicultura.

Para Janaina, a Agroecologia é um conjunto de práticas agrícolas e arranjos de espécies que excluem a necessidade do uso de agrotóxicos e adubos químicos.  Tal sistema de produção agrícola resulta em maior proximidade do produtor com os consumidores, além de possibilitar a venda de produtos agroecológicos a um preço justo.

O planejamento do plantio no Sítio Anacleto busca realizar o plantio de árvores associadas a uma cultura principal, no presente caso, a pitaia, através de Sistemas Agroflorestais - SAFs. Há também o plantio de hortaliças associadas a plantas de serviço (ex.  mamona preta e a braquiária), dos quais são manejadas com o objetivo de fornecer cobertura no solo dos canteiros, e consórcio de cultivos e uso de plantas companheiras (ex. coentro cultivado em  conjunto ao tomate e ao cravo de defunto além do manjericão) (Figura 1). Tais práticas auxiliam na arrecadação de renda em curto prazo.

Figura 2. Vista lateral do papel da mamona preta Paraguaçú na formação de pomar de pitaia (imagem Janaína Anacleto).

O SAF presente no Sítio é desenhado utilizando um espaçamento de 4 m X 4 m entre plantas de pitaia, dos quais são escoradas em mourões de concreto e apresentam o cultivo de hortaliças, e nas entrelinhas das mesmas são plantadas linhas de mamonas espaçadas 2 metros. Forma-se assim o extrato de cultivos: o extrato emergente, que proporciona a meia sombra para o cultivo da pitaia e é realizado pela mamona preta (Figura 2), do qual é manejada com podas para abertura de luz; o extrato médio, que é cultivado com as parreiras das pitaias; e o extrato baixo, que é cultivado com as hortaliças, que são cultivados em consórcios (ex. alface e rúcula, alface e couve flor, couve, coentro e alho poró).  Com a sombra dos extratos superiores, os cultivos crescem vistosos em ambiente propício e aproveitam toda a água do sistema de irrigação por gotejamento instalado na linha de pitaia. A captação é realizada por meio de poço artesiano. Os cogumelos shimeji, o qual é comprado inoculado em sacos e cultivado por três meses, são vendidos para restaurantes e chefes de cozinha.

Na propriedade também há o processamento dos produtos que são oferecidos aos consumidores, como o caso das geleias de hibisco e pimenta, a carne de jaca, a mandioca congelada, que agregam valor aos produtos agroecológicos e tem excelente aceitação.

A venda direta dos produtos agroecológicos, através do circuito de proximidades entre produtor e consumidor, é responsável por viabilizar o sistema em conjunto com ferramentas digitais, como Facebook (https://www.facebook.com/janaina.anacleto.35), Instagram (https://www.instagram.com/sitio_anacleto_agroecologico) e WhatsAPP (whats.link/sitioanacleto), que facilitam o planejamento de venda semanal e a entrega delivery ao grupo de consumidores que pertecem a aquela rede de consumidores. Em tais redes sociais é postado o dia a dia no sítio com as filhas ensinando o cultivo agroecológico e na cozinha ensinando pratos vegetarianos e veganos que faz com amor e dedicação.

As vendas semanais das hortaliças e legumes variam de 20 a 40 consumidores por semana e gera um recurso de R$ 30,00 a R$ 100,00 por consumidor. Já os cogumelos, cada  lote tem um custo de R$ 2.000,00 e geram um retorno de R$ 4.000,00. O resultado econômico dos cogumelos é a cada três meses de cultivo.

Outra ferramenta utilizada pela agricultora é a formação de associação de produtores parceiros, que, na visão da Janaina, tais produtores devem estar o mais próximo possível do próprio assentamento, a fim de viabilizar economicamente a forma de comercialização e a confiança entre os parceiros.

 

Experiência de Michelle Anita no assentamento Olga Benário:

As atividades com SAF no sítio da Michelle e Vitor (seu filho) se desenvolvem desde o ano de 2013. Uma diferença entre as duas situações é que no  assentamento Olga Benário não há irrigação e o relevo é declivoso enquanto no assentamento Conquista a irrigação é possibilitada por poço artesiano em terreno plano.


Em 2021, Michelle Anita plantou uma quadra de pitaia tutorada com gliricídia. A gliricídia foi plantada no espaçamanto 2m x 4m, a partir de estacas obtidas na APTA – Polo Regional do Vale do Paraíba, em Pindamonhangaba, no âmbito de uma parceria entre os projetos Vitrine Agroecológica e Conexão Mata Atlântica/FAPESP.

Além de pitaia e gliricídia, por vezes, semeou o feijão de porco para ativar a simbiose (relação benéfica) entre bactéria e planta leguminosa para a fixação biológica do nitrogênio (FBN) na gliricídia. 

   
Figuras 3. Pitaia já crescida, porém, ainda amarrada na estaca de gliricídia que inicia a brotação; Figura 4. Gliricídia com boa produção de folhagem e pitaia nova no moirão vivo; Figura 5. Detalhe da pitaia realizando o abraço amigo no moirão vivo de gliricídia (imagens Michelle Anita).

No manejo em sistema de mutirão as/os agricultoras/es locais dos assentamentos Olga Benário e Conquista de Tremembé: Roseli (Binha), Paulinho, Vitor, Júlia e Michelle Anita, se uniram para realizarem o coroamento das pitaias, a manutenção nas entrelinhas com a capina da braquiária, onde foram semeados milho, guandu e quiabo e também para acompanhar a experiência.

Ao plantar a pitaia na gliricídia, a arbórea pode servir de tutor vivo (moirão vivo) e na poda da parte aérea fornece o adubo orgânico rico em nitrogênio para a pitaia. Outro fator importante é que a pitaia precisa de um leve sombreamento porque seu caule (filocládio) fica lesionado com queimaduras se receber insolação muito intensa, tal como ocorre no Vale do Paraíba em determinadas épocas do ano.


Diferenças entre os sistema de plantio:

A braquiária é o desafio a ser vencido por causa da competição com as espécies cultivadas e porque aumenta os danos quando ocorrem os incêndios. A braquiária pode ser roçada para cobrir canteiros, ser incorporada com motocultivador para o plantio da pitaia, conforme realizado por Janaína Anacleto, ou roçada no manejo reduzido apenas nos locais de plantio da gliricídia com a pitaia em berços abertos com motocoveador. 

  

Figura 6. A braquiária como planta de cobertura nas duas situações (imagem Janaína Anacleto); Figura 7. Preparo total para o plantio de pitaia quando a braquiária é incorporada com motocultivador (imagem Janaína Anacleto); Figura 8. Preparo localizado com roçada e abertura de berços com motocoveador para o plantio de estacas de gliricídia com pitaia (imagem de Michelle Anita). 




31 de mar. de 2021

24 de fev. de 2021

A REDE AGROFLORESTAL DO VALE DO PARAÍBA E A AGRICULTURA FAMILIAR EM TEMPOS DE PANDEMIA

 

O ano é 2020: a situação é de pandemia e as mudanças estão intensas.



Por:

Antonio Carlos Pries Devide – pesquisador científico e agroflorestor
Any Bittar – Economista e agroflorestora
José Miguel Garrido Quevedo – perito ambiental e agroflorestor
Thiago Ribeiro Coutinho – agroflorestor da reforma agrária e biólogo
Mariana Pimentel Pereira – agroflorestora, educadora
Julia Trommer – agroflorestora, projeto Cesta Viva para Comunidade

Chegamos em 2021, mal acreditando o que aconteceu em 2020. A pandemia pegou o mundo de surpresa, muita coisa, antes improvável, aconteceu e a incerteza se tornou nossa rotina, nossos temores se multiplicaram, qual seria nosso futuro como humanidade? Ainda não temos as respostas e nem a luz do fim do túnel, mas temos a CONFIANÇA de que a diversidade e o sistema agroflorestal são questões chave para a preservação e regeneração do nosso território. Nós da Rede Agroflorestal somos conscientes dos anseios, desejos e principalmente da força incansável de seus membros; focamos as energias em ações que possam garantir a continuidade do trabalho desenvolvido desde o ano de 2012.

Esses são alguns dos tópicos de atuação em 2020:

1.      Institucionalização da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba: Histórico, Pessoa Jurídica, eleição do Conselho Deliberativo e Plano de Ação.

2.      Ações de superação da agricultura familiar no ‘novo normal: Problemas de Comercialização e mudanças climáticas, novas formas de venda de produtos (CSA e rede colaborativa).

3.      Mudanças Climáticas: aumento e maior abrangência dos Incêndios Florestais e a resiliência dos SAFs.

4.      Mutirões e ATER: mesmo com a pandemia aconteceram os mutirões, ações importantes na ausência de ATER e parcerias estratégicas.

5.      Fortalecimento da Reforma Agrária e Agricultura Familiar.

6.      Apoio e Parcerias: Participação do ISA, Instituto AUÁ, compras coletivas de mudas de banana, implementação de viveiros de mudas de frutas nativas e arbóreas.

7.      Relatos de pesquisas: 4 artigos destacam os SAFs e a Rede Agroflorestal.

8.      Matéria no Globo Rural: Participação de integrantes da Rede em ações de regeneração do planeta no Vale do Paraíba.

9.      Considerações Gerais: Nosso balanço e expectativa para 2021.

 

1.      institucionalização da rede agroflorestal

A Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba surgiu da união de diversos atores interessados em articular pessoas para praticar e disseminar os sistemas agroflorestais (SAF) para restaurar a paisagem na bacia hidrográfica do Paraíba do Sul.

1.1 CONSELHO DELIBERATIVO DA REDE AGROFLORESTAL

A institucionalização da Rede Agroflorestal foi iniciada no ano de 2016 com oficinas para elaboração da minuta de estatuto. Em 2019 esse assunto foi retomado, com ajustes do documento e o apoio jurídico do Instituto Auá de Empreendedorismo Social, por meio do Edital ECOFORTE da Fundação Banco do Brasil – FBB, no âmbito do projeto ‘Rede de produtores de cambuci e frutas nativas da Mata Atlântica’ do qual os associados da Rede Agroflorestal são beneficiários.

Esse processo durou quatro meses, constituiu em assembleia uma diretoria provisória e o protocolo da documentação no cartório de registros. Foram idas e vindas de documentos via Sedex entre São Paulo (sede do advogado) e Pindamonhangaba (sede da Rede) para atender às demandas do cartório num processo lento.

Já imersos na pandemia de covid-19 buscamos o auxílio da advogada Daniella Rabello que acompanhara o processo desde 2019 e assessorara a institucionalização da Rede APOENA de Taubaté. Após oficinas de leitura e reuniões on-line, novos ajustes no estatuto e assembleia virtual, realizada no dia 26/08/2020, constituiu-se definitivamente o Conselho Deliberativo da Rede Agroflorestal. Nessa etapa, contamos com o apoio da TNC (significado em inglês: The Nature Conservancy) para o custeio das despesas jurídicas, cartório e fundo de reserva.

Conselho Deliberativo da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba:

·        Diretor Presidente: Antonio Carlos Pries Devide (pesquisador agroflorestor)
·        Diretor Presidente substituto: Valdir Martins (agroflorestor)
·        Diretores: Thales Guedes Ferreira (biólogo agroflorestor) e Leandro Braz Camilo (educador agroflorestor)
·        Comitê de auditoria interna: Juliane Maria da Silva Ferreira (tecnóloga em meio ambiente e recursos hídricos e agroflorestora) e Animeire Bittar (economista e agroflorestora)

 1.2            PLANO DE AÇÃO PARA A REDE AGROFLORESTAL DO VALE DO PARAÍBA

Em 2021 recebemos o apoio da WRI (significado em inglês: World Resources Institute) para elaborar um Plano de Ação que sirva de portfólio de apresentação da Rede Agroflorestal e, também, para balizar a atuação do Conselho Deliberativo entre os anos de 2021 e 2023. O objetivo principal é levantar as principais demandas de seus associados para priorizar ações. A metodologia de elaboração do Plano deve se balizar em quatro eixos:

1)     Revisão do histórico da Rede Agroflorestal
2)     Questionário virtual para os associados responderem por aplicativo de celular
3)     Entrevista com referência da História Oral Temática junto a pessoas chave
4)     Dois workshops on-line:
    a.      Apresentar versão preliminar do Plano para correções de seus associados
    b.   Validar o Plano de Ação

As atividades para elaboração desse plano já começaram. Em função da pandemia serão utilizadas ferramentas digitais e o diálogo à distância. Em breve será disponibilizado o link de acesso ao questionário virtual para ser preenchido por meio de aplicativo em celular. Posteriormente, faremos os contatos para entrevistas com pessoas chave e para viabilizar os meios necessários para ter a presença do maior número de pessoas nos workshops on-line.

 

2.      Ações de superação da agricultura familiar no ‘novo normal’

Muitas atividades previstas para ocorrer nos núcleos que integram a Rede Agroflorestal foram realizadas com o público restrito, em respeito ao isolamento imposto pela pandemia.

2.1 Problemas de Comercialização e Mudanças Climáticas

As perdas de receita da agricultura familiar foram devido à redução da venda de produtos na pandemia, porque os pontos de venda, como as feiras-livre, ou fecharam ou tiveram o público consumidor reduzido. Ademais os programas como o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos e PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar foram interrompidos.

A publicação de lei federal nº 13.987, de 7 de abril de 2020 que autorizou a entrega de produtos do PNAE para as famílias de estudantes durante a pandemia, não reduziu as perdas dos agricultores, porque a aquisição de alimentos do PNAE vem caindo nos últimos anos e houve cortes na política federal, como é o caso do PAA e o fim da ATER - assistência técnica e extensão rural com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário no ano de 2016.

As mudanças do clima também acentuam os prejuízos dos agricultores. Períodos prolongados de seca, chuvas torrenciais, granizos e vendavais se tornaram frequentes e depreciam a produção sem que as famílias sejam amparadas por políticas públicas de seguro social.

2.2 REDES COLABORATIVAS DE PEQUENOS CIRCUITOS E CSA – COMUNIDADE QUE SUSTENTA AGRICULTURA

Uma alternativa para a crise de geração de renda é a relação comercial na venda direta dos produtos agroecológicos em circuitos curtos. Além do uso de aplicativo de celular para facilitar o planejamento da produção e a entrega de cestas, as CSA – Comunidade que Sustenta Agricultura trouxeram um grande avanço para a agricultura familiar ao tornar consumidores co-agricultores.

Esses produtores parecem economicamente mais ativos na pandemia, inclusive, realizando a compra de produtos de outros agricultores que não participavam das CSA e amargavam quedas na geração de renda com o fechamento das feiras-livre e programas governamentais de aquisição de alimentos. Isto ocorreu no Nova Esperança, assentamento de reforma agrária de São José dos Campos.

Atualmente, o assentamento Nova Esperança possui três CSA: CSA Guajuvira com Thaís Rodrigues da Silva e Altamir Bastos (início em 2017), CSA Sítio Ecológico com Valdir Martins e CSA Pindorama no Sítio Nossa Senhora Aparecida, com Gessi Braz e Luciano Reis, ambas com início das atividades em 2020.

Para a CSA Guajuvira: “os nossos agricultores estão inseridos numa rede de produtores no assentamento, então eles conseguem comprar e trocar vários alimentos para compensar a escassez temporária” (de alguns alimentos por causa dos eventos climáticos: excesso de chuvas e escassez hídrica). Dessa forma os consumidores ou co-agricultores ao entrar para a CSA concordam com a oferta sazonal de produtos conforme as condições ambientais. A CSA Guajuvira conta com 47 co-agricultores.

A CSA do Sítio Ecológico desenvolve os SAF desde o ano de 2012. Nos últimos meses foram levantados os custos de produção, manutenção e sustento da família (custos fixos) e chegou-se a um número mínimo de 20 co-agricultores para o início da CSA. E de maneira muito auspiciosa, no dia 8 de agosto, véspera do Dia dos Pais, foi consolidada a primeira atividade de colheita, separação, preparação e entrega das 20 cestas. Atualmente essa CSA conta com 29 co-agricultores. Porém, estima-se que são necessários 50 co-agricultores para a CSA atingir o ponto de equilíbrio, entre a soma das despesas de produção, a cobertura dos custos fixos e uma remuneração justa para a família de agricultores. A CSA Pindorama do Sítio Nossa Senhora Aparecida também se formou em 2020 e já conta com 15 co-agricultores. 

2.3 APOIO AO PROJETO CESTAS VIVAS PARA A COMUNIDADE

A quarentena no Litoral Norte de São Paulo agravou a vulnerabilidade socioeconômica da população de baixa renda, excluídos, quilombolas, indígenas e caiçaras. Pois, a economia nos municípios litorâneos é flutuante e baseada no turismo. A agricultura familiar já enfrentava dificuldades para estabelecer-se e com a pandemia a situação agravou-se. O mesmo ocorreu com os agricultores dos municípios próximos da Serra do Mar e do Vale do Paraíba que abastecem o litoral com alimentos agroecológicos. 

Nesse contexto, alguns grupos voluntários e atores sociais como a Rede Brotar, Lar Arara, AG Bioconstrutora, Comunidade que dá Suporte a Agricultura do Litoral Norte - CSA-LN, Instituto Verde Escola Instituto Tiê, Escola de Educação Infantil Sol da Terra, Projeto Meu Pé na Roça, se juntaram para criar o “Projeto Cestas Vivas para a Comunidade” que visa fortalecer a soberania e a segurança alimentar e nutricional das populações do Litoral Norte e Vale do Paraíba.

No ano de 2020, entre março e setembro, foram comprados e distribuídos alimentos agroecológicos no Litoral Norte e Vale do Paraíba. O projeto arrecadou fundos via financiamento coletivo, doações e em sua penúltima ação teve o apoio institucional e financeiro da WWF-Brasil.

A gestão do projeto foi descentralizada e adquiriu alimentos de agricultores e pescadores caiçaras e agricultores agroecológicos do Vale do Paraíba, com a ajuda de diversas pessoas e instituições, incluindo o Projeto Vitrine Agroecológica da APTA e campesinos da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba, do Assentamento Nova Esperança em São José dos Campos. A parceria estendeu-se aos municípios de São Luiz do Paraitinga, Lagoinha e Redenção e Natividade da Serra, com Associação Minhocas e Akaruí.

      Figura 1. Mapa do circuito do Projeto Cesta Viva para a Comunidade. Arte: Julia Trommer

Foram distribuídas 1.221 Cestas Vivas que totalizam cinco toneladas de alimentos agroecológicos, gerando renda para 30 famílias de agricultores e pescadores.

O projeto está em avaliação para possível retomada em 2021 com uma articulação territorial para formar a Rede Agroecológica Serras e Mar que visa fortalecer visando encurtar as distâncias e fortalecer a economia local, a soberania e a segurança alimentar nos municípios relacionados, superar a vulnerabilidade social e ampliar o mercado dos alimentos agroecológicos no litoral.

 

3.           MUDANÇAS CLIMÁTICAS - DESAFIOS DA ADAPTAÇÃO DA AGRICULTURA

3.1 COMPROMISSO COM OS SISTEMAS AGROFLORESTAIS

O ano de 2020 ficou marcado na história do Brasil como um dos mais secos e quentes e com as maiores extensões de terras queimadas em todos os biomas.

O Governo Federal descumpriu as metas de combater o desmatamento, banalizou as queimadas, tentou desqualificar os centros de ciência e tecnologia e o sistema de monitoramento e combate ao desmatamento e incêndios florestais, restringiu a participação da sociedade civil organizada no CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente e interrompeu o apoio da Comunidade Europeia ao Fundo da Amazônia.

A Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba manifesta o repúdio à impunidade, à expansão agropecuária sobre áreas da Floresta Amazônica, à limpeza de pastos com herbicidas e o uso do fogo no Pantanal, à invasão de terras indígenas e quilombolas por madeireiros e mineradores, a suspensão da reforma agrária e a perseguição dos movimentos sociais do campo em todo o Brasil.

A Rede Agroflorestal manifesta o compromisso em disseminar os sistemas agroflorestais para produzir alimentos e restaurar áreas de florestas, para garantir o atendimento das metas de redução das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) para a atmosfera e recolocar o país em lugar de destaque no cenário internacional no combate ao aquecimento global, mediante os incentivos aos modelos de produção de base agroecológica que fomentam a captura e a fixação do carbono, tal como os SAF.

3.2 INCÊNDIOS FLORESTAIS

Dos Urupês de Monteiro Lobato ao Moderno monitoramento do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

A tradição ultrapassada de renovar pastagens com fogo no Vale do Paraíba é crime ambiental. A prática da queimada nos remete ao século XVIII, quando as matas deram lugar aos cafeeiros plantados morro abaixo nos mares de morros. Isso, para facilitar os olheiros (capitão do mato) que vigiavam o serviço da mão de obra escrava.

No ano de 2020 os focos de incêndio se alastraram na paisagem e consumiram muitas áreas em regeneração, matas nativas maduras e SAF. O maior incêndio ocorreu em julho/2020 e durou semanas até ser extinguido. Consumiu boa parte da vegetação do Pico da Pedra da Mina e da Serra Fina, nos altos da Serra da Mantiqueira.

A estiagem prolongada por mais de seis meses, entre abril a setembro, é acompanhada de elevadas temperaturas e baixa umidade relativa do ar. Nesse período de 2020, diversos registros foram obtidos de whatsapp da Rede Agroflorestal, em que a mobilização popular combateu os incêndios para proteção dos SAF e matas nativas no Vale do Paraíba.

Em Jambeiro, o agroflorestor Michel Bottan registrou o combate ao incêndio que durou dias e noites, consumiu pastos e matas em regeneração e chegou muito perto de seu SAF.

Em São José dos Campos, no assentamento Nova Esperança, o fotógrafo Lucas Lacaz Ruiz registrou a degradação pelo incêndio que atingiu o SAF do agroflorestor Luciano Reis e consumiu boa parte da franja em regeneração da área de floresta em estágio médio da reserva legal. As imagens revelam a paisagem desolada e a morte de animais silvestres. A provável causa desse incêndio criminoso foi a limpeza para expansão da área de pasto sobre a reserva legal do assentamento.

Figura 2. Incêndio criminoso no assentamento Nova Esperança é combatido pelos agroflorestores, mas degrada SAF e a reserva legal.

No assentamento Olga Benário, os agricultores também registraram a mobilização popular no combate aos incêndios por queimadas que são recorrentes com labaredas de seis metros de altura. Em alguns casos houve a participação do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil. Mas, quando não há vidas humanas em risco a destruição da natureza segue ceifando vidas silvestres com os observadores à distância.

A ausência de brigadas de incêndio ao nível municipal e regional retrata a incapacidade de o poder público em responder às demandas socioambientais. Mas até quando?

O INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, em parceria com campesinos de São José dos Campos vinculados a Rede Agroflorestal o produziu um relatório seguido de denúncia crime protocolizado na Polícia Ambiental, indicando o provável ponto de origem do incêndio. O INCRA também iniciou procedimento para compra de materiais para equipar uma brigada de incêndio no assentamento Nova Esperança.

3.3 AGROFLORESTAS SÃO MAIS RESILIENTES ÀS MUDANÇAS DO CLIMA

Embora as mudanças climáticas impactem todos os sistemas agroalimentares, nas agroflorestas esse efeito é relativamente menor. Ainda que algumas culturas sejam perdidas com a escassez de água, ondas de calor, vendavais, granizos e fortes chuvas, sempre há o que se colher em uma agrofloresta biodiversa.

Uma cultura pode ser menos produtiva no SAF em comparação ao seu desempenho em monocultivo, devido ao sombreamento e à competição que ocorre entre as espécies diferentes. Porém, quase sempre há melhoria no microclima do SAF, com temperaturas amenas, maior umidade do ar e dissipação do excesso de radiação luminosa por causa da interceptação das diferentes camadas (estratos) de plantas, além do contínuo aporte de matéria orgânica ao solo que eleva a fertilidade, aumenta a atividade biológica de microrganismos e a retenção de umidade no substrato. Esses fatores tornam o ambiente do SAF mais resiliente aos extremos do clima, em comparação ao monocultivo.

No cômputo geral, se uma cultura tem seu desempenho reduzido no SAF ou se ela é perdida nos extremos climáticos, a oferta de alimentos e renda é garantida pela biodiversidade de espécies. Ou seja, uma espécie rústica compensa a queda de produção de outra sensível. Já na monocultura isso não ocorre, pois se a condição do ambiente for restritiva a lavoura tem queda de produção ou é toda perdida sem que haja meios de compensar as perdas com outra cultura no mesmo ciclo.  

As capinas seletivas nos SAF também ajudam a enriquecer a biodiversidade e a melhorar a resiliência, pois mantêm o ‘mato bom’ ao preservar plantas medicinais e PANC – plantas alimentícias não convencionais.

4 APRENDER FAZENDO: COMO OS MUTIRÕES AGROFLORESTAIS SUPREM AS DEFICIÊNCIAS DE ATER?

A Assistência Técnica e Extensão Rural – ATER demandam profissionais preparados para o trabalho em comunidades rurais com os sistemas agroflorestais agroecológicos.

Os mutirões agroflorestais da Rede Agroflorestal ajudam a qualificar a mão de obra para trabalhos dessa natureza ao englobar os diferentes perfis de produtores atuantes na região. A metodologia aprender fazendo é sempre uma estratégia eficaz para se transformar iniciantes em agroflorestores experimentadores. Mas tudo começa com o estudo da paisagem e o planejamento participativo, seguido da formação de grupos de trabalho para a implantação ou manejo agroflorestal havendo rica troca de conhecimentos acumulados por associados experientes e a abertura para novos ensinamentos trazidos por novos integrantes. A troca de experiências, o aprender fazendo e o ensino de campesino a campesino são as características da ATER da Rede Agroflorestal.

4.1 ATIVIDADES EM NÚCLEOS DA REDE AGROFLORESTAL

Os mutirões agroflorestais foram retomados a partir de agosto/2020 e seguem ocorrendo em 2021. Porém, com a reunião do público restrita aos participantes de cada núcleo.

Um núcleo da Rede Agroflorestal é algo subjetivo. No nosso entendimento um núcleo abrange uma determinada porção do território e as pessoas que nele habitam, que podem estar mais perto ou que mantém uma relação estreita e simpática, relações sociais ou econômicas.

Dentre os núcleos da Rede Agroflorestal, destacam-se:

·            Região de São José dos Campos, Jambeiro e Caçapava;
·            Região de Pindamonhangaba, Taubaté, Tremembé, Aparecida e Roseira;
·            Região de Lagoinha, Cunha, São Luiz do Paraitinga, Natividade e Redenção da Serra;
·            Região de Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Areias, Silveiras e Lorena;
·     Mantiqueira: municípios do alto da Serra abrangendo São Francisco Xavier, Monteiro Lobato, Gonçalves, Sapucaí Mirim, São Bento do Sapucaí e Santo Antônio do Pinhal.
·            Litoral: Paraty, Ubatuba e São Sebastião.

Porém, reconhecemos que há muitas iniciativas valiosas isoladas que podem fortalecer a Rede Agroflorestal e se fortalecer com a troca de experiências, sementes e informações de agroflorestores para agroflorestores. Essa é uma tarefa que precisa ser intensificada, principalmente com agroflorestores que ingressaram no meio rural vindo do meio urbano, quase sempre com uma rica bagagem de vida nas mais diversas áreas do conhecimento.

4.2 PARCERIAS EM AÇÕES DECENTRALIZADAS

No ano de 2020 a articulação entre os núcleos Tremembé, Lagoinha e São José dos Campos contou com atuação do agroflorestor Thiago Ribeiro Coutinho que também é bolsista do Projeto de Pesquisa FAPESP 2018/17044-4/Conexão Mata Atlântica. Esse projeto apoiou a implantação em Cunha, realizada por cinco famílias e supervisionada pela tecnóloga em Agroecologia Marccella L. Berte, de módulos de SAF e restauração florestal num total de 9.565 m².

No assentamento Olga Benário, em Tremembé, os mutirões agroflorestais começaram primeiro, em agosto, e no assentamento Conquista, em dezembro. No Olga Benário a organização está avançada no manejo dos SAF desde o início da Rede Agroflorestal. Foram beneficiadas 12 famílias e uma área coletiva, totalizando 28.000 m² e no Assentamento Conquista, cinco famílias, num total de 5.000 m² de SAF implantados.

Figura 3. Atividades no assentamento Olga Benário envolveram agricultores na restauração ecológica de uma área para conter a expansão de uma voçoroca, plantio de cerca viva de gliricídia (moirão vivo), coleta e troca de sementes diversas num trabalho engajado de mulheres e jovens. 

A parceria do INCRA, APTA, MST e Rede Agroflorestal na execução do Curso de Longa Duração sobre Agroecologia (2019) serviu de fomento para introdução dos SAF no assentamento Conquista, que atualmente conta com a ajuda de agroflorestores experientes do assentamento Olga Benário. A equipe de trabalho fortalecida nessa união viabilizou o manejo agroflorestal e integrou atividades sazonais, como a colheita da safra de lichia orgânica do Sítio da Deise Alves.


Figura 4. Articulação no assentamento Conquista foi fruto do Curso de Longa Duração em Agroecologia (2019) e parceria com assentamento Olga Benário e Egídio Bruneto (Lagoinha). 

Em São José dos Campos, no Assentamento Nova Esperança, cinco famílias foram beneficiadas para implantar 5.000 m² de SAF. Em Lagoinha, estão sendo implantados cerca de 26mil m² de SAF e um hectare de muvuca de sementes florestais, por meio de brigada de trabalho que contou com a força dos agricultores locais organizados por Thiago Coutinho. Foram beneficiadas 20 famílias do assentamento Egídio Bruneto em quatro núcleos e uma área coletiva.

Em São Luiz do Paraitinga, o agroflorestor contratado pelo projeto Conexão Mata Atlântica, Ismael Soares Filho, implantou, em sistema de brigada, cerca de um hectare de muvuca de sementes florestais e está reintroduzindo a leguminosa arbórea gliricídia (Gliricidia sepium) para ser manejada como adubo verde e forrageira em sistemas silvipastoris, formando pequenos módulos e um banco de produção de estacas, que abrangem 12 famílias num total de 10.000 m².

Lagoinha, São Luiz do Paraitinga, Pindamonhangaba, Tremembé e São José dos Campos receberam as gliricídias e um mix de sementes e materiais propagativos de culturas estratégicas para aos agricultores implantarem os SAF, sistemas silvipastoril e áreas de restauração florestal com semeadura direta de muvuca de sementes florestais.

4.3 Projetos de apoio aOS mutirões AGROFLORESTAIS

Dois projetos apoiaram os mutirões da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba

·        Projeto de Pesquisa FAPESP 2018/17044-4 ‘Avaliação de crescimento e produção de espécies florestais nativas e culturas usando os modelos 3-PG e YieldSafe’ coordenado pela pesquisadora Dra. Maria Teresa Vilela Nogueira Abdo – APTA Centro Norte.

·        Projeto de Ciência Cidadã ‘Vitrine Agroecológica: as bases das pesquisas em agroecologia’, coordenado pelo pesquisados Antonio Carlos Pries Devide – APTA Vale do Paraíba.

Ações: aquisição de motocoveadores e motopoda, montagem de telado de produção de mudas no Polo em Pindamonhangaba, orientação técnica e distribuição de materiais propagativos para implantação / expansão das áreas de SAF (sementes de adubos verdes - feijão de porco, crotalária, sorgo, guandu, tefrósia e flemíngia -, sementes de milho variedade e quiabo, ramas de genótipos de mandioca, hastes de variedades de cana com aptidão para açúcar e melado e estacas de Gliricidia sepium para adubação verde) (Figura 5). Além das sementes e mudas, o projeto também forneceu assessoria técnica para adaptar o plantio das espécies em módulo de SAF.

Figura 5: Esquema de arranjo plantio que serviu de base de cálculo para o fornecimento de materiais propagativos da APTA para a implantação de módulos de SAF de 1.000m² .

Os materiais foram fornecidos aos agricultores dos Núcleos Tremembé (assentamentos Olga Benário e Conquista), Lagoinha (assentamento Egídio Brunetto) e São José dos Campos (assentamento Nova Esperança), aos beneficiários do projeto FAPESP de Cunha (OSCIP SerrAcima – responsável Marina Valadão e tecnóloga em Agroecologia Marccella L. Berte - A semeadura direta por meio da muvuca de sementes é usada pela primeira vez em Cunha-SP. – Serracima), São Luiz do Paraitinga (OSCIP Akaruí – responsável técnica Daniela Coura) e Redenção da Serra (Projeto Conexão Mata Atlântica - responsável técnico Dagoberto Meneghini).

Outra proposta que vem sendo trabalhada é a adoção do esquema utilizado para implantação de SAF com a semeadura direta de sementes florestais, trabalho preconizado por técnicos do ISA - Instituto Sociambiental e da iniciativa Caminhos da Semente (https://www.caminhosdasemente.org.br/). Nesse arranjo, preconiza-se que nas entrelinhas sejam mantidos os capins (marandu, braquiária, ou outro), que deverão ser roçados e a massa acumulada nas linhas de plantio (Figura 6). 

Figura 6. Sugestão de módulo de SAF a ser implantado com muvuca de sementes florestais (fonte: Edézio Miranda - técnico em semeadura direta para restauração da iniciativa Caminhos da Semente e Thales Guedes Ferreira - agroflorestor do Sítio dos Ipês - Cruzeiro/SP).

 

5. Fortalecimento da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar

No processo de aquisição de áreas improdutivas para a reforma agrária um item importante é o cumprimento dos requisitos do Licenciamento Ambiental na CETESB. O assentamento Egídio Bruneto em Lagoinha necessitava da obtenção da Licença de Instalação antes do vencimento da Licença Prévia. Em 2020, o INCRA promoveu um processo participativo que contou com a coordenação do acampamento para a coleta de dados de vegetação e recursos hídricos para elaboração do laudo para o protocolo do pedido de Licença de Instalação (LI) na CETESB.

Foram definidos o formato dos lotes e a quantificação das áreas de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente. A LI permitirá a regularização ambiental do projeto de assentamento agroecológico, a seleção e homologação de 55 famílias num futuro próximo.

A Prefeitura Municipal de Lagoinha, por meio da sua equipe de governo, permitiu o uso da Sala da Cidadania onde ocorreram reuniões e oficinas com o uso de computadores e auxílio técnico para o preenchimento dos formulários e editoração das certidões (Figura 7). A Prefeitura também emitiu as certidões necessárias para o protocolo na CETESB.

Figura 7. Prefeitura de Lagoinha apoia o INCRA na regularização das 55 famílias acampadas no assentamento Egídio Brunetto, com sala de informática e apoio técnico para o mutirão que cumpriu com os requisitos para solicitar a Licença de Instalação na CETESB.

Esse processo participativo foi possível porque há um histórico de mutirões agroflorestais promovidos pela Rede Agroflorestal, APTA e INCRA, que aproximaram os atores locais da Prefeitura. O contato com a engenheira agrônoma Isabel Cristina Nascimento da Motta da Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente foi fundamental para concluir os trabalhos.

 

6. Apoio e Parcerias

6.1 Instituto Socioambiental – ISA e INICIATIVA Caminhos da Sementes

A compra de sementes de árvores nativas para a implantação de muvuca de sementes florestais cresceu no Vale do Paraíba. Inicialmente, o trabalho era restrito a um pequeno grupo de coletores e alguns técnicos; nos últimos anos foi incrementado com o ingresso de agricultores familiares com o incentivo do ISA por meio da compra de sementes.

Diversos agroflorestores trabalham na coleta, no beneficiamento e na venda das sementes. Áreas de muvucas florestais foram instaladas em todo o estado de São Paulo. Uma dessas áreas, com sementes florestais coletadas em Lagoinha, Tremembé e Cachoeira Paulista, foi implantada no Polo Regional Centro Norte, em Pindorama, sede do projeto FAPESP coordenado pela Dra Teresa Abdo. O ISA viabilizou a compra das sementes dos agricultores locais e forneceu assessoria técnica para a implantação de áreas de muvucas no Vale do Paraíba.

No ano de 2020, foram coletados cerca de 700 kg de sementes florestais de 30 espécies arbóreas no Vale do Paraíba, gerando renda de 40 mil reais para cerca de 15 agroflorestores coletores de Tremembé, Lagoinha, Cruzeiro e Cunha.

6.2 Instituto Auá de Empreendedorismo Social

A parceria com o Instituto Auá se deu por meio do projeto ‘Rede de Produtores de Cambuci e Frutas Nativas da Mata Atlântica’, no âmbito do edital da ECOFORTE da Fundação Banco do Brasil – FBB. O projeto fomentou o acesso dos agricultores da Rede Agroflorestal às experiências com frutas nativas, assessoria técnica para a instalação de quatro cozinhas experimentais de processamento dessas frutas e a aquisição de equipamentos para o processamento.

Os quatro núcleos beneficiados foram:

o   Lagoinha – Assentamento Egídio Bruneto;

o   Tremembé – Assentamento Conquista e Olga Benário,

o   Bairro do Ribeirão Grande - Fazenda Nova Gokula de Pindamonhangaba;

o   Setor de Fitotecnia do Polo Regional Vale do Paraíba (APTA/SAA).

O objetivo é impulsionar a exploração de frutas nativas adaptadas aos distintos ambientes da região. Como exemplo, o Ribeirão Grande em Pindamonhangaba apresenta aptidão edafoclimática para o cultivo da palmeira juçara (Euterpe edulis) para produção de polpa dos frutos (‘açaí da juçara’).

No eixo da BR-116, a cozinha a ser instalada na APTA promoverá a pesquisa sobre o processamento experimental das frutas nativas e PANC em sistemas de produção agroecológica. Essa ação está atrelada aos projetos ‘Vitrine Agroecológica’ e ‘Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional’ e visa estabelecer o monitoramento e a coleta de dados técnicos junto aos produtores, que poderão beneficiar sua produção experimental na APTA. Essa parceria é essencial para estruturar a cadeia de produção das frutas nativas.

Em Lagoinha, a unidade se insere no circuito Cunha – São Luiz do Paraitinga, com via de acesso por estrada de terra até a BR-116, chegando ao Polo Regional e aos centros consumidores.

O Instituto Auá também contratou a bolsista Mariana Pimentel Pereira, agroflorestora e educadora assentada em Lagoinha, para desenvolver o trabalho de pesquisa de mapeamento de matrizes de espécies de frutas nativas (uvaia, grumixama, cambucá, araçá e outras) em risco de extinção a catalogação de matrizes de frutas nativas em cinco municípios do Vale do Paraíba.

6.3 Projeto Vitrine Agroecológica ARTICULA AS PESQUISAS E A Compra coletiva de mudas DE NOVOS CULTIVARES de banana

A crescente demanda por mudas de banana fez com que diversos agroflorestores buscassem o apoio da APTA para obter mudas de variedades antigas e novas cultivares melhoradas.

A bananeira é o carro chefe da maioria dos SAF e em função de seu rápido crescimento, frutifica com cerca de um ano, produz abundante quantidade de fitomassa rica em seiva mineral (potássio e outros minerais). Ao colher um cacho de banana de 25kg são gerados cerca de 50kg de resíduos adicionados ao sistema de produção, sendo que mais de 90% desse montante é o pseudocaule constituído por mais de 80% de seiva. Para cada cacho de 25kg são adicionados mais de 36 litros de seiva mineral ao sistema de produção. O pseudocaule cortado na forma de telha, aberto longitudinalmente, deve ser colocado no entorno das mudas de frutas nativas em associação p.ex. que se beneficiam da seiva.

O potássio é o transportador de açúcares na planta e atua na abertura e fechamento dos estômatos, que são estruturas celulares presentes aos milhares nas folhas das plantas. O potássio governa a abertura e o fechamento dos estômatos, respectivamente para a captura do carbono do ar e para evitar a perda de água sob condições ambientais desfavoráveis (seca, calor, ventos fortes, baixa umidade do ar).

O grupo de compra coletiva de mudas de banana micropropagadas (cultivo de meristema), produzidas por empresa certificada pelo MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, busca melhorar os níveis técnicos dessa cultura em relação às principais doenças. Participaram desse grupo agroflorestores e técnicos das regiões do Vale do Paraíba, Serra do Mar, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira.

Ao todo foram adquiridas 1.940 mudas das variedades do grupo Prata: Prata anã, Platina e FHIA18; Grand Naine e BRS Princesa, beneficiando-se dois agroflorestores de Gonçalves; dois da Fazenda Nova Gokula e o Polo Regional (APTA/SAA) de Pindamonhangaba; uma agricultora de São Luiz do Paraitinga e outro de São Sebastião (Litoral Norte); dois de Taubaté, sendo um da Rede APOENA; e três de Tremembé (Assentamentos Olga Benário e Conquista).

A expectativa é desenvolver a pesquisa participativa para monitorar o comportamento dos novos genótipos que são mais tolerantes às doenças: Mal-do-Panamá (Fusariose de solos) e Sigatoka-negra (fungo que ataca as folhas). Essa pesquisa está sendo montada com apoio da agroflorestora Julia Trommer de São Luiz do Paraitinga.

Entretanto, a Rede Agroflorestal alerta quanto aos princípios da Agroecologia para que os atores regionais identifiquem, cataloguem, resgatem e mantenham planteis de variedades antigas de banana, tais como a banana Prata Mel, São Tomé (vermelha ou roxa), Figo e Marmelo (cozinhar), Ouro, entre outras variedades regionais adaptadas. Dessa forma, ampliam-se a agrobiodiversidade da cultura.

6.4 Viveiros de produção de mudas arbóreas

Através do projeto FAPESP 2018/17044-4 foi adquirido um telado para a produção de mudas arbóreas com ênfase em frutíferas para acelerar o plantio de enriquecimento dos SAF.

No Assentamento Conquista, a produtora Deise Alves recebeu a doação de estrutura e tubetes para produção de mudas de um viveiro mantidos por agroflorestores cooperados que deve entrar em funcionamento no ano de 2021.


7. Relatos de pesquisas

Quatro trabalhos destacam o papel da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba em tempos de pandemia, através do Conexões, Pesquisa cidadã, Frutas Nativas e a Rede em Tempos Outro,

foram redigidos por seus integrantes e apresentados em simpósios:

7.1 O. artigo ‘Conexões que transformam a sociedade e o ambiente: ações da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba no assentamento Nova Esperança I de São José dos Campos/SP, Brasil’ foi apresentado no 1º Simpósio de Biogeografia. Esse artigo é parte da monografia de Anna Cláudia Leite. Foi selecionado e publicado como capítulo de livro da Editora ANAP.

O conteúdo relata as mudanças na biogeografia do assentamento e no comportamento das pessoas, com base na história oral temática e revisão bibliográfica. Autores: Antonio Carlos Pries Devide; Anna Cláudia Leite; Suzana Lopes Salgado Ribeiro; Cristina Maria de Castro; José Miguel Garrido Quevedo.

Link: Livraria | Amigos da Natureza - ANAP - Livro: Biogeografia e Paisagem, capítulo 12.

7.2 O artigo ‘Pesquisa cidadã fortalece a segurança alimentar e nutricional na integração campo-cidade na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte’, foi apresentado pelo estagiário da APTA/SAA Rudson Haber Canuto – EAD Agroecologia/UNITAU, no XII Simpósio de Reforma Agrária da UNIARA.

O artigo relata as metodologias de pesquisas do projeto Vitrine Agroecológica no fomento da formação popular para atuar em Agroecologia e Sistemas Agroflorestais e registra as relações campo-cidade na Região Metropolitana entre Litoral Norte e Vale do Paraíba na pandemia. Autores: Antonio Carlos Pries Devide; Rudson Haber Canuto; José Miguel Garrido Quevedo; Cristina Maria de Castro; Sylvia Helena de Espíndola Salles.

7.3 O trabalho ‘Construção participativa da cadeia produtiva de frutas nativas da Mata Atlântica no Vale do Paraíba, região Sudeste, Brasil’ foi apresentado no II Simpósio Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis - Municípios que Educam para Sustentabilidade, na modalidade Relato de Experiência, área temática Processos Formadores (Educação Formal e Não Formal) ESALQ-USP: OCA.

A apresentação abrange o processo de formação da Rede de Produtores de Frutas Nativas da Mata Atlântica, que abrange a identificação de matrizes, coleta de sementes, produção de mudas e implantação de pomares em sistema agroecológico de produção. Autores: Mariana Pimentel Pereira, Thiago Ribeiro Coutinho e Antonio Carlos Pries Devide.

Link: Instituto Auá Construção participativa da cadeia produtiva de frutas nativas da Mata Atlântica no Vale do Paraíba, região Sudeste, Brasil - Instituto Auá (institutoaua.org.br)

7.4 A Rede Agroflorestal em Tempos Outros... foi um artigo demandado pelo SESC – São José dos Campos. O objetivo foi registrar a origem da Rede Agroflorestal e a situação dos agricultores e populações locais no início da pandemia. Foram estabelecidos contatos com agricultores do Vale do Paraíba e técnicos do Litoral Norte (Rede Caiçara), que forneceram elementos para traçar um panorama geral da situação da comercialização de alimentos, geração de renda e combate à insegurança alimentar e nutricional. Autor: Antonio Devide.

Link: Sesc São Paulo - A Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba em Tempos Outros - Revistas - Online (sescsp.org.br)

8. Matéria Globo Rural

No mês de novembro a equipe de reportagem do Globo Rural esteve no Vale do Paraíba para gravar a reportagem especial de aniversário da edição nº 41, exibida no dia 10/01/2021, que abordou a Vida Secreta das Árvores: as árvores conversam? pensam? sentem?

Foram visitadas áreas de SAF em Pindamonhangaba na Fazenda Nova Gokula e no Pólo Regional da APTA, e no Sítio Ecológico em São José dos Campos. A agricultora Gouralila falou da importância do alimento como um ser vivo para nutrir e dar vida às pessoas. O pesquisador Antonio Devide apresentou as relações funcionais que ocorrem entre as espécies num SAF. O agroflorestor Valdir Martins apresentou a CSA – Comunidade que Sustenta Agricultura como modelo de produção em Rede de Cooperação que aproxima as pessoas da cidade à vida no campo como forma de promover a reeducação alimentar e comportamental.

A matéria foi elaborada pelos repórteres e editores do Globo Rural: Nelson Araújo e Mariana Fontes.

Link: Globo rural de Aniversário 41 Anos 10/01/2021 completo sem comercial - Bing video

 

9. Considerações Gerais

Para fechar a primeira matéria do ano de 2021 nada melhor do que fazer uma revisão das atividades da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba... Digo, de algumas ações porque teve muito mais trabalho!!! Cada Núcleo, cada SER que integra a REDE tem uma história especial para contar que precisa e merece ser valorizada!!!

É com esse espírito de valorização que a REDE AGROFLORESTAL DO VALE DO PARAÍBA agradece a todos integrantes e parceiros por manterem-se ativos durante a pandemia.

Esse momento demanda uma revisão de como o comportamento da sociedade nos levou ao isolamento e reforça a tese de que a biodiversidade é o único caminho para nos mantermos vivos e saudáveis.

Que 2021 seja um ano de boas revelações e muito trabalho para os Sistemas Agroflorestais!

Neste artigo relatamos como foi o ano de 2020 para os integrantes da Rede Agroflorestal e registramos os trabalhos para uma boa nova no ano de 2021.