23 de mar. de 2022

...é desafiador sair ilesa dos momentos em que olhar e mãos ganham sentido de profundeza.

Por Dábila Cazarotto*

Escrevo porque é desafiador sair ilesa dos momentos em que olhar e mãos ganham sentido de profundeza. 

 

Das caminhadas que meu pensamento faz, eis que mais uma delas ganha realidade na tessitura dos meus dias.

Sim, lá onde o dia começa antes do amanhecer: dormir com a lua de farol na janela aberta, acordar com café e atenção para não pisar em cobra, dividir em pão e palavras a vontade de fazer com que as coisas cresçam e deem certo para todas e todos juntos da terra!

Acordar o irmão que acorda o filho, que acorda um caminho longo a ser seguido. Pegar as mudas que mesmo caladas, ecoam os seus cânticos de verdejar o dia que aflora. É roça, é boi, fio, enxada e facão. É a vida tentando dilatar entre os canteiros do latifúndio. Vida que se faz comunitária, transpassa lote do outro na tecnologia social de cooperar para que unidos possam crescer. 

Nesse fermento, acaba que cresce também a terra, os insetos, a água, a palavra, o desabafo, o lamento.. logo, uma canção aparece e ecoa uma rima, um trocadilho e o olhar serpenteado faz rir as mãos calejadas.
 

Quando chegamos no lote de Kombi, percebi buracos cavados no chão. Minha mente tropeçou na surpresa de ver maneiras tão redondas de se fazer furo na terra. Ver tantos buracos levou para um lugar distante dentro de mim.. "a gente já nasceu com tantos furos no peito e as contradições da vida só fazem eles crescerem, né?".. Penso: 

- quem faz os buracos dentro da gente? 

- quantos buracos cabem em cada corpo? 

- porque deixamos fazer? 

- como tapar buracos? 

- como semear remendos?

Provocações fazem dança dentro da cabeça, enquanto isso, o corpo pega nutrientes, esterco, gel para hidratar o solo, enxada e mudas. Lá vamos.. de buraco em buraco, preparando as camadas para plantar as árvores do sistema agroflorestal: a gente intercala uma árvore nativa, com uma bananeira, no final somos 4 e plantamos +/-30! Somos poucos e fazemos muito no que é possível! 

Olhei para longe, as colinas do Vale tem essa mania de encantar, ainda mais de manhã quando o sol entra nelas. Olhar para longe me fez perceber a grandeza do perto. Após o trabalho, não havia mais buracos eles não deixaram de existir mas, sim, ganharam novos significados de direções. Buracos que não fazem mais furo no sentido para baixo, agora buraco virou semente em ninho de árvore para criar vida e alimento, limpar água e ar, ser casa para bicho voador... Buraco, agora, vai cutucar o céu com esperança da partilha entre os diversos que se unem em um propósito comum. 

Pisco olho e sinto uma quentura. Ela não vem do Sol de fora, é de dentro do tórax que cresce acho que com tais pensamentos e vivência ao lado dos companheiros, algum buraco foi "replantado" aqui dentro deste corpo. 

Aprendo novamente que plantar é cura!

Estar juntos na fúria da Esperança em luta também! 

Que nossas escolhas sejam coletivas e compartilhadas, igual colheita de São João!!!

Agradeço por estar com vocês! 

Até abril, 

Lagoinha, 20 de Março de 2022.

Dábila Cazarotto - autora do texto e imagens. 


*participante da vivência agroflorestal do MST (janeiro/2022) (short laranja), participante da Ciranda e da Inauguração da Biblioteca 'Joel Gama' da Escola Popular Ana Primavesi no Assentamento de Reforma Agrária Egídio Brunetto e do lançamento do livro "Krenak, o menino de braços compridos" (19/03/2022), da Marcha Mundial de Mulheres e Teia dos Povos.

 

  







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