3 de nov. de 2021

ENTREVISTA COM DEISE ALVES PARA O PLANO DE AÇÃO DA REDE AGROFLORESTAL DO VALE DO PARAÍBA

 

Data: 10.04.2021

Local: Assentamento Conquista, Tremembé - SP

Por: Patrícia Lopes

 

Esta entrevista com Deise Alves (Figura 1) traz muitas informações sobre as dinâmicas da introdução dos SAF em uma unidade de produção agroecológica em um assentamento de reforma agrária agroecológica do Vale do Paraíba, em Tremembé, bem como as prioridades para a Rede Agroflorestal trabalhar nos próximos anos. Boa leitura.  



Figura 1. Deise Alves (ao centro de máscara) em confraternização com equipe parceira após mutirão agroflorestal.

Bom dia. Patrícia aqui. Estou conversando com a Deise. Deise, qual é o seu nome completo, por favor?

DEISE: Deise Alves.

Onde você reside atualmente?

DEISE: Atualmente, ou melhor dizendo, há 27 anos, na estrada 13 e lote 28, no assentamento Conquista, no município de Tremembé (Figura 2).

Figura 2. Sítio de Agricultura Orgânica e Agroecológica Benvinda Conatti, Estrada 3, nº 1082 - Tremembé, Vale do Paraíba paulista.

E como que você chegou até aí, como começou essa vida no campo de produtora rural? Você sempre viveu aí? Qual foi o caminho que fez você chegar até aí? O que te motivou a fazer essa escolha?


DEISE: Essa escolha se deve a uma luta pela conquista da terra e à reforma agrária, através do MST. Desde 1986. Eu fui dirigente da frente de massa do MST, na década de 80 e 90, e a última ocupação que realizei foi aqui no assentamento Conquista, em Tremembé, em 1994.

O que te motivou?

DEISE: O que me motivou foi uma posição política, ideológica e de vida.

De que forma vocês estão organizados aí, tanto dentro da sua propriedade, mas também com o coletivo aí no assentamento? Como é que vocês se organizam?


DEISE: Se tratando da agroecologia, antes da pandemia, no nosso grupo aqui da agroecologia, que somos em cinco... havia esse compartilhamento, essa parceria de ajuda. Com a vinda da pandemia, isso anulou. Está muito difícil. No meu território, eu tenho que frequenta por aqui: o Rodrigo (Dametto Faria Santos), que é agrônomo e vem voluntariamente 2x por semana, e um outro rapaz de 20 anos que eu pago por mês para ele trabalhar aqui. Com a assessoria do Rodrigo, e que em breve, também vai ser incorporado aqui, com as atividades da horta agroecológica. Nos SAFs o Rodrigo está “tocando”. Ele minimamente já tem feito algumas coisas, pois só consegue vir 2x por semana. O rapaz fica direto, e mora aqui de 2ª a 6ª feira, e “toca” as demandas. A partir de 2ª feira será instalada a irrigação na horta agroecológica (fiz uma compra grande para irrigação), e a expectativa é de se viver com a renda dessa horta. Está tudo sendo feito na “raça”, com recursos próprios. O que temos de liderança, concretamente hoje, é a reestruturação de uma cooperativa. É uma cooperativa mista, que vai englobar o assentamento Nova Esperança (Mara Lúcia Galvão e outros), o pessoal de Lagoinha (que é um pessoal determinante, que produz) agroecologia, alguns aqui do Conquista, alguns pequenos produtores de Pindamonhangaba. A Cooperativa abriu para técnicos, agrônomos e outros técnicos que também irão entrar para a cooperativa. A gente espera que para o mês de maio a gente consiga definir a nova diretoria (a gestão anterior está vencendo). Estou muito envolvida porque essa questão da cooperativa dá muito trabalho. Se tem alguma liderança, vai ser essa entidade jurídica, essa diretoria que a gente vai formar. E o restante do assentamento – que aqui são 103 lotes, o restante trabalha no convencional. Infelizmente, aqui no assentamento, tem algumas deformações, sob o ponto de vista político, moral, e outras questões internas. Então, estamos priorizando pessoas que estão envolvidas com a agroecologia, na questão organizativa.

E o que você vê de importante, de diferente, que te fez escolher esse tipo de produção agroflorestal?

DEISE: Estamos em um processo bem inicial. Mas o que já estou vendo de importância é a mudança no solo, os pássaros que vem no SAFs, as sementes que a gente já começou a colher. No momento estou com muita tefrósia para colher (e vou ter de colher sozinha mesmo). Quer dizer, a paisagem já começa a mudar. Agora é mão-de-obra, né. Estou com um SAF de outubro do ano passado que estou com o serviço atrasado lá. Embora eu tenha feito um empréstimo e consegui comprar um tratorito, já tenho uma roçadeira, mas ainda sim é muito pouco. Precisa de gente para operar. Eu já não tenho mais força física para tal. Enfim, a ideia é a gente fazer parceria com as universidades, não só por uma visão utilitarista dos jovens estagiários, mas também para trazer essas pessoas para colocar a mão na massa (ampliar o aprendizado). Não adianta ficar só falando de agroecologia e as pessoas não virem até aqui participar. Aqui no lote onde eu moro, eu tomei a decisão de abrir para sociedade. Mas a sociedade tem que participar. E como que a gente faz isso? Amanhã vou ter uma visita – abri uma exceção, para três profissionais (fisioterapeutas) que querem desenvolver um trabalho com ervas medicinais aqui e vamos nos reunir para discutir essa parceria. Já fizeram o curso com o Hamilton (Trajano Cabral), e vou destinar uma parte aqui da área para as ervas medicinais e aromáticas. Acho importante. As pessoas estão vindo com propostas concretas. E eu tenho que coordenar isso para não chocar com outras coisas. Como já tem pessoas aqui, como o Rodrigo, que é técnico, agrônomo profissional, e voluntário, tem que vir pessoas, mas tudo muito bem-organizado para não chocar com o trabalho do outro que já está aqui. Embora eu acredite que está tudo integrado.

Figura 3. Deise Alves reuniu uma rede de parcerias com os assentados de reforma agrária Paulinho, Thiago Coutinho, Michelle Anita, Guilherme e outras pessoas de diversos assentamentos do Vale do Paraíba, além do apoio do agrônomo Rodrigo Dametto, para juntos realizarem o planejamento, a implantação e o manejo de SAF entre 2019-2021. 

A outra pergunta é mais ou menos o que você já respondeu, mas se você tiver mais alguma coisa para complementar, da forma como você vê a atuação da Rede Agroflorestal, até o momento.

DEISE: Eu sou nova na Rede. Eu, quando não tenho um tempo (de vivência) – como o Thiaguinho (Thiago Ribeiro Coutinho), a Mariana (Pimentel Pereira) e o Antonio (Devide), eu sou ainda “caloura” na Rede Agroflorestal. Eu posso mencionar os pontos positivos: é uma Rede que motiva. Quando você abre o grupo no whatsapp você vê uma diversidade de pessoas. Você vê técnicos, de todos os níveis sociais e econômicos, pessoas de classe média (a maioria), que mora no seu apartamento, que não tem terras, e que tem história diferente daqueles que conquistaram a terra, como nós assentados, que participam da Rede. Acho que tem essa parte super bacana, essa troca. E os especialistas, no caso do Antonio (Devide) e outros, que fazem parte como ele, que são fundamentais nesse processo. Isso é o que eu vejo de positivo. Agora, quando se trata de questões referentes a metodologia, de como vamos fazer, aí começa a dar problema... porque cada um tem a sua realidade, e não é fácil fazer essa troca. Principalmente nesse momento que estamos atravessando, muito difícil. Tem que ter muito tato, tem que ter muita paciência, de ver como a gente faz essa troca. Por exemplo, tem situações, do ponto de vista geográfico, nos assentamentos, principalmente, que não tem internet ou tem problemas de internet, como é o caso do Olga Benário (Tremembé) e de Lagoinha... e um pouco lá em Nova Esperança (São José dos Campos). Nós, aqui de Tremembé, a gente tem condição, um pouco. Porque aí precisa ter dinheiro para pagar o plano da internet, que nem todo mundo tem. Então, é difícil. Se não fosse a pandemia, com certeza você estaria aqui falando comigo pessoalmente e não fazendo essa conversa por telefone. Estaria fazendo presencialmente. Por causa da pandemia tem que ser dessa forma, não tem jeito. O desafio presencial é depois, pós pandemia, como vai se dar isso. Pois a Rede Agroflorestal é muito ampla. Você conhece as postagens no whatsapp, mas essa questão de dinamizar os SAFs, isso é uma coisa difícil. Não é fácil. E a questão da democracia, né. Quais são as formas de participação? Isso a gente só faz quando tem um processo de acúmulo, quando você já conhece a Rede. Quem são as pessoas, qual o engajamento dessas pessoas, efetivamente? Com um trabalho de base, do universo da agroecologia. É difícil. Mas tem pontos positivos.

 

Como é uma “rede” entorno da agroecologia... 

DEISE: eu vejo assim... isso já está no estatuto da associação da Rede Agroflorestal. Eu vejo que a Rede tem que cumprir o seu papel social, acima de tudo, e isso ela está cumprindo, com alguns limites, mas está cumprindo. Só o fato de ter tido um primeiro mutirão aqui e eu conseguir colher esse quiabo lá do SAF, e estar comendo esse quiabo ou estar dando continuidade no projeto, a Rede já está cumprindo o seu papel. Como em outros lotes dos assentados. Então, acho que esse papel social é importante. Agora, também não dá pra gente fugir da questão política, conjuntural. Porque nós estamos passando por uma fase muito difícil, que tem tudo a ver com meio ambiente. O meio ambiente está inserido nesse universo da conjuntura política, da conjuntura econômica do nosso país. Não dá pra dizer, “ah isso é separado, não quero saber de política”... isso não existe. Isso não existe! Então como uma sugestão para os próximos encontros: seja via on line ou seja presencial daqui um tempo... mas nós temos que trazer pessoas para fazer análise de conjuntura. É o que eu sinto falta na Rede Agroflorestal. Uma coisa é você fazer uma análise de conjuntura, especificamente da agroecologia dentro do universo do meio ambiente. Entendeu? Isso é uma coisa. Agora a gente precisa trazer especialistas, até para as pessoas que participam da Rede ter esse debate. Se não faz o debate, a gente “atrofia”. A gente não sabe como é essa coisa do debate dentro do campo da democracia. Então, a minha sugestão (não sei se eu posso fazer essa proposta) é colocar essa proposta para as pessoas que participam da Rede e ter essa iniciativa, e encontrar alguns nomes de especialistas que fariam isso na maior boa vontade, de fazer essa análise de conjuntura para os participantes da Rede. A questão da mulher, é muito importante, a participação da mulher nessa conjuntura. Por já termos um ano muito difícil, o ano que vem vai ser um ano decisivo para o país, que vai eleições em 2022. Mas não se trata de fazer campanha política. A questão é já ir preparando as pessoas. Eu estou sentindo falta de ter alguém dentro do nosso campo, da Rede Agroflorestal, fazendo análise de conjuntura. Mesmo que tenha discordância, importante debater as discordâncias, entendeu? Acho importante fazer uma análise de conjuntura política pra nós. Da Rede Agroflorestal tomar essa iniciativa. 

Legal importante mesmo, né? Fazer as pessoas para esse exercício, de refletir e de discutir. A nossa forma de viver é um ato político. Pode ser ou não, dependendo de como se vive..

DEISE: É. É verdade.

O que que você vê como importante para ser trabalhado para ser desenvolvido daqui para frente? Para os próximos anos, o que a Rede precisa se preocupar, quais as demandas? O que que você vê que falta e que precisa melhorar?

DEISE: Mais essa questão técnica, eu mesma ainda continuo tendo dúvidas. As vezes tiro dúvidas com o Thiago. Importante ter uma avaliação técnica do SAF, por exemplo (algo como um monitoramento). Um SAF está aqui há dois anos. Seria bom ter alguém da Rede que a gente possa trocar essas ideias com pessoas que tem SAFs, que tem essa vivência, mais do que nós aqui, para saber se o que a gente está fazendo está certo. Por exemplo, ainda não tenho irrigação do SAF – só consegui irrigação para a horta. Saber como aproveitar a irrigação para o SAF, de alguma forma. Levar para o SAF também. Outra coisa, além disso, conseguir mais mudas - pra quem é jovem tudo bem demorar mais 5 ou 10 anos, mas pra mim que... se eu não conseguir mais mudas da Mata Atlântica... que aqui ainda tem muito pouco.. Eu acho que a gente precisa conseguir mais mudas. Eu já consegui uma doação de 2 mil mudas, entre nativas e outras, que nós distribuímos em vários assentamentos da nossa região. Agora, a gente precisa de mais mudas. E esse monitoramento de mudas que foram para os assentamentos (Olga Benário, o Conquista, Nova Esperança)... fazer um levantamento para saber se as pessoas cuidaram dessas mudas. Porque algum dia, a pessoa que me doou essas mudas vai querer saber, vai me cobrar, como que ficaram as mudas? Estão cuidando? Isso é uma responsabilidade que a gente tem que ter. Entendeu? Mas eu acho que tem que ter alguém para saber como está o SAF no lote 28 onde a Deise mora. Perguntar de precisamos de mais alguma coisa. Digo isso pós pandemia. Para a gente retomar essa troca.

Figura 4. Reuniões e oficinas são atividades regulares para o planejamento das atividades ao nível local e relação com parceiros do Sítio Benvinda Conatti, Tremembé - SP. 

É troca e fundamental mesmo. Agradeço muito.

DEISE:  Está certo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário