9 de jan. de 2022

DESAFIOS PARA UMA CONVIVÊNCIA HARMONIOSA COM A FAUNA VISITANTE NOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS

Os SAF como ilhas de biodiversidade na matriz de pastagens do Vale do Paraíba fornecem serviços ecossistêmicos para a fauna com recursos alimentares e abrigo. 

Como compensar os danos nas lavouras por ataques da fauna?

Restaurar a Mata Atlântica modificaria a matriz da paisagem, mas reduziria esse problema?

Ultimamente tem gerado reflexão sobre os desafios de produzir alimentos nas diferentes situações agroecológicas da Mata Atlântica (Figura 1). 

Figura 1. Convivência inteligente na produção agrícola em SAF que melhoram a paisagem, regeneram os solos e funcionam como ilhas de diversidade. Fonte: Juliano Hojah (Paraibuna - SP)

Na lista da fauna que visita e danifica as áreas de cultivo destacam-se: javali, lebrão, maritaca, jacu, caramujo africano e abelhas Apis melifera africana. De todos estes, apenas a maritaca e o jacu são nativos. É importante identificar corretamente os animais para não piorar o equilíbrio biológico.

Se faltam os predadores que trariam o equilíbrio para essas populações, os desequilíbrios tendem a aumentar. 

Assim sendo, como garantir a produção de alimentos (Figura 2), promover o equilíbrio biológico e reduzir os danos se a cadeia alimentar não está completa?

Figura 2. Horta agroflorestal na Serra da Mantiqueira (Itajubá - MG). Fonte: Bruno Almeida.

E qual mobilização fazer enquanto Rede Agroflorestal no sentido de contribuir para a melhoria do equilíbrio?


Conflitos e soluções apontadas por membros da Rede Agroflorestal

O problema do caramujo africano (Achatina fulicola)

Renato Portela relata que meados dos anos 90, fez um curso de criação do caramujo africano no Parque da Água Branca (São Paulo/capital),  quando ainda era novidade e lá mesmo adquiriu matrizes e começou a criação em viveiros apropriados com contenção de telas.

A criação foi muito bem, mas na primeira degustação eu detestei o cheiro e sabor e dei uma relaxada na manutenção enquanto procurava um interessado para repassar. O resultado foi uma tremenda infestação, que eu não tinha ideia de como combater. Eu consegui exterminar tudo com o controle dos lagartos e principalmente os gambás, lembrando que o caramujo tem hábitos noturnos.

Tamara Regina da Cruz da Fazenda Mundo Bom, em Cunha-SP, relata que os patos também comem os caramujos e os patos são uma boa opção para diversificar a produção animal da unidade familiar de produção.

Ana Lúcia verificou em Ubatuba que: 

Com relação ao caramujo, reparei que ele fica mais forte na área urbana. Talvez, porque não gosta de umidade na terra e as cidades são mais propensas às ilhas de calor. Aqui na minha região eles chegaram nos entulhos que trouxeram para a rua de terra. Como chove muito, eles tendem a subir no muro. Coletei, fiz nosodio (medicamento homeopático preparado a partir de amostras patológicas de animais ou vegetais) e eles sumiram. Mas eram bem poucos. Ana Lúcia Martins (Ubatuba)

Entretanto, é importante identificar a espécie de caramujo corretamente, pois a eliminação do caracol gigante nativo brasileiro (Megalobulimus sp.), também conhecido por aruá-do-mato, considerado 'vulnerável' com risco de extinção devido à destruição da Mata Atlântica, seu habitat original, implica em desequilíbrio ecológico e impacto na população de moluscos brasileiros.


Figura 3.  Diferenças entre o caramujo africano e o já raro caramujo gigante nativo brasileiro. Fonte: https://dourado.sp.gov.br/noticia/print-noticia/1212/combate-do-caramujo-africano/

As abelhas Apis sp. x melipônias nativas

Bruno Franzin (São Luiz do Paraitinga) alerta sobre o impacto das abelhas exóticas com ferrão na competição por recursos alimentares (néctar e pólen) com as abelhas nativas, na competição por ocos em árvores nas matas para construção dos ninhos e não menos importante é o risco de ataque das abelhas exóticas em pessoas e animais, comportamento exclusivo das abelhas africanas.

Figura 4. Ninho de abelha melipônia. Fonte: Bruno Zanin.

A importância da criação das abelhas nativas sem ferrão (Figura 4) traz um retorno positivo ambientalmente , conservando as espécies de abelhas e ajudando na polinização da vegetação nativa. Os produtos que elas oferecem são incríveis, tem também o aspecto financeiro e a satisfação/realização pessoal de trabalhar com as abelhas nativas sem a necessidade de muitas roupas especiais e sem oferecer nenhum perigo para vidas animais e humanas. (Bruno Franzin)

Os problemas do javalí/javaporco (Sus scrofa) e da lebre europeia (Lepus europaeus)

Na Serra da Mantiqueira, Vinícius Pontello (Gonçalves - SP) e Jonas Santos (Sapucaí Mirim - MG), registram os muitos desafios para implantar qualquer tipo de sistema ou cultura devido à difícil convivência com a superpopulação de lebrão (Figura 5) e javali (Figura 6), na ausência de predadores desses animais exóticos.

Figura 5. Lebrão é problema na Serra da Mantiqueira. Fonte: Instituto Ambiental do Paraná

Figura 6. Javali já é considerado problema em boa parte do Brasil e tem sua caça liberada. Fonte: https://www.worldanimalprotection.org.br/blogs/por-que-javalis-sao-so-desculpa-para-liberar-caca

O lebrão é nativo da Europa, introduzido na Argentina e Chile para a caça esportiva e chegando ao Brasil na década de 1950 por meio da fronteira com Uruguai. Os javalis tornaram-se um problema nacional na década de 1990, quando produtores rurais soltaram suas criações no campo. Sem predadores, essas espécies se proliferaram e tornaram-se um perigo para a produção e no caso dos javalis, também para os humanos e criações animais. Estudos revelam que os predadores são o cachorro do mato, jaguatirica, gato mourisco, lobo guará e , no caso dos javalis, a onça-parda. 

Segundo Jonas, primeiro "sanaram" o problema dos javalis com cerca elétrica, mas ainda sim correram um grande risco em cada implantação de SAF e/ou lavoura com a perda de variedades de sementes crioulas no ano de 2021, por exemplo, além do prejuízo financeiro.

Na última primavera, tiveram perdas de 100% em algumas lavouras devido ao ataque da lebre europeia (lebrão). Começam o ano de 2022 com desafios econômicos para solucionar e também muitas horas de reflexão sobre o futuro, em relação a resolver a questão das lebres.

"Talvez estejamos no momento de gerar conhecimento nesse sentido, políticas públicas no controle de fauna exótica e começar o debate. E assim em conjunto com desenvolvimento das técnicas, metodologias e afins na implantação e manejo dos alimentos tenhamos formas de proteger tudo isso." (Jonas Santos)

Matheus Santaella (São José dos Campos), pretende testar urina de vaca, pois também perdeu toda lavoura de berinjela para a lebre. 

Tentei uma arapuca, mas não deu certo. Pimenta também não deu certo. Matheus Moretti - GC Ecoforte orientou que usa-se a primeira urina da manhã (rebanho bovino)... Conseguimos coletar aqui mesmo e vou testar nos poucos pés que sobraram. (Matheus Santaella)

Laura Breda questiona se é possível testar cães para afastar/caçar as lebres. 

Sofremos muito com o estrago que as lebres faziam em nossas hortaliças. Conseguimos espantá-las usando cabelo de gente em sacos de laranja ou cebola. O chato era a catança nos cabeleireiros da cidade. Mas deu certo! (Ana Lucia Martins)

Leandro Braz Camillo - técnico do projeto Conexão Mata Atlântica/APA - São Francisco Xavier atesta que os resultados com cabelo humano são positivos.

Ana Salles Aguiar (Aparecida) (Figura 7), explica que também pode utilizar pelo de cachorro, fazendo umas trouxas, mas alerta que tem que ser sem lavar os pelos. Thales Guedes Ferreira (Cruzeiro), relata que já usou pelos de cachorro e que deu certo e acha que urina dos cachorros, talvez, também dê resultado. 

Figura 7. Integração dos SAF com aquicultura e áreas ciliares preservadas no Sítio Terra de Santa Cruz, Roseira-SP. Fonte: Google Earth.


O problema das aves nativas

No Ribeirão Grande, em Pindamonhangaba, no sopé da Serra da Mantiqueira, área bem protegida e com muitos remanescentes de Mata Atlântica, Gisele Vieira que mantêm 80% da área da Fazenda recoberta com vegetação nativa relata que o javali e o porco do mato são os maiores problemas para os cultivos. As aves maritaca (Pionius sp.) e jacu (Penelope sp.) são problemas, principalmente, para frutas (mamão, abacate, juçara) e hortaliças (Figuras 8, 9 e 10). 

Figura 8. Maritaca é o nome popular de uma ave que vive em bandos e também ocuparam as cidades. Fonte: Revista Vitrine OnLine 
(http://revistavitrineibiuna.com.br/?p=22035).


Figura 9. Jacu é o nome popular de um pássaro que também vive em bandos. Fonte: Pousada do Gian (https://youtu.be/PvLXlIgHBjw).




Figura 10. Danos por forrageamento de aves em hortaliças em Paraibuna. Fonte: Juliano Hojah.

Juliano Hojah (Natividade da Serra) relata que o espantalho e pendurar CDs usados, de forma que fiquem girando, ajudou bastante a espantar as aves nos cultivo (Figura 11).

Moatã Pinhal (Mogi das Cruzes) relata que uma vez pegou um jacu na arapuca, depois que as aves destruíram dois lotes de couve/brócolis e repolho. Ressalta que naquela época estava passando por dificuldades financeiras e nada adiantava (CD, espantalho...). 

Figura 11. Espantalhos e CD pendurados ajudam a espantar as aves em Paraibuna. Fonte: Juliano Hojah

Enfim, eu vivia só disso, não tinha outra renda, acho que vocês sabem o sentimento que é ver teu trabalho ser comido num sistema capitalista. Os bichos ficavam esperando eu sair do talhão prá invadir...😂. Era prá rir se eu não fosse chorar... Quando o capturei (jacu), não o matei, chacoalhei como dando bronca... ele urrava aquele som que o jacu faz... ele tava com medo e os amigos deles todos vendo/ouvindo... O Soltei mais tarde, sem machucados, apenas um susto. Só posso dizer que eles não voltaram a me incomodar mais naquela temporada e quando me viam, iam prá longe. Afinal, ele só parece ser um Jacu... Não me orgulho, sou bicho homem, o tempo todo busco reavaliar minha existência... 

Enfim só pra pensar no caipira que ia na cidade só para comprar sal e uma caixa de fósforo (livro: Os parceiros do Rio Bonito, estudos sobre o caipira paulista). E não o que vivia com fome por mudar seu modelo tradicional de produção para atender o mercado (livro de Josué de Castro que fala da geografia da fome no Brasil).

(Precisamos) voltar a ser ilha de agricultura e não ilha de biodiversidade... (Moatã Pinhal)

Julia Trommner (São Tomé das Letras) relata que a maritaca destruiu a rede elétrica da casa e Francisco Zanin (São Luiz do Paraitinga) explica como resolveu o problema ao tampar o vão entre a parede e as telhas com espuma de colchão velho ou espuma expansiva. Já Antonio Devide (Pindamonhangaba) utilizou pedras pouco maiores que o vão das telhas, posicionando-as por dentro do vão, entre o forro de madeira e a telha.


Convivência harmoniosa na biogeografia de ilhas

Estamos no Planeta Terra a serviço do Criador e tudo na sua obra merece atenção!

Valdir Nascimento (MST) do Sítio Beija Flora, no assentamento de reforma agrária Olga Benário (Tremembé) registra que antigamente a área do assentamento tinha eucalipto e a fauna praticamente inexistia.

Hoje, com fragmentos de florestas nativas, APPs (áreas de preservação permanente) protegidas e em regeneração natural, SAFs implantados, temos a volta de muito da fauna da região e inevitavelmente o conflito por recursos... gaviões, ariranhas, teiús, quatis, cães abandonados... atacam galinhas, ovos e pintainhos... lebre, capivara nas roças... gralha, maritacas, periquitos, jacus... o milho e frutas pequenas... Já não tentamos afugentá-los e muito menos expulsá-los. O segredo... tem sido produzir prá nós e prá eles. Em troca eles nos oferecem o atrativo de observá-los. É animador quando o nosso trabalho contribui para alimentar a fauna no entorno. Temos recebido a visita do (lobo) Guará que as vezes vem buscar umas galinhas. Valdir Nascimento

Janaína Anacleto - Sítio Anacleto, do assentamento de reforma agrária Conquista (Tremembé), registra que: esse é o caminho, muito embora estamos falando de produzir e gerar recursos, às vezes a gente se aborrece por ter investido tempo e dinheiro numa área e não ter produção, mas...  pensamos também que produção agroecológica é isso e (também) fazer parte, não ser donos do sistema, se não nos pertence, pertence a todos, inclusive e ainda mais aos animais (Figura 12).

Figura 12. Sítio Anacleto (Dez./2021), Janaína Anacleto apresenta seus parceiros na semeadura de diversos tratamentos de muvuca de sementes florestais em um hectare de área, integrando os SAF e a restauração de mata ciliar (apoio: Caminhos da Semente, Agroícone, Instituto Socioambiental, TNC). Fonte: https://www.instagram.com/p/CXiaWNxrvJf/

Janaína relata que com o começo dos SAF a cerca de 2 anos, já começaram a aparecer 🐒 saguis (Callithrix sp.): nós estamos apaixonados e em troca, além da beleza, trazem as fezes cheias de (sementes) nativas.

Alda Santos do assentamento de reforma agrária (MST) Egídio Brunetto (Lagoinha) (Figura 13), relata que: 

...no nosso sítio tem mata prá todos os lados, além de deixar um corredor de 4 metros para passagem dos amigos animais.  

Plantamos muitas frutíferas tradicionais e frutíferas nativas, não tenho escoramento da produção nem tem muita produção no SAF de 4 anos. Mas o pouco que tem, divido com meus companheiros e companheiras do assentamento e com os amigos animais. 

Verifiquei que os pássaros consomem muitas sementes  e quando não têm nem fruta nem sementes eles comem o milho porque a mata ao redor do sítio é muito pobre em frutíferas. Então resolvi neste ano 2022 plantar dentro da mata alguns pés de café, cacau, pêssego, uvaia, peludinha, coquinho açaí e outros que conseguir. Na verdade tenho uvaia e pêssego.

Figura 13. Alda Santos e seus familiares que trabalham no SAF, na ocasião da entrevista para o Plano de Ação da Rede Agroflorestal. Fonte: Anna Cláudia Leite.

Tamara Cunha, de Cunha-SP, registra que a convivência com a fauna é possível: 
A única resposta que eu tenho, que praticamos aqui no nosso SAF em Cunha, é plantar sempre a mais. Plantamos sempre a mais pensando nos nossos fregueses de casa, são nossos visitantes mais estimados ❤️. Dá só um trabalhinho a mais.

Renato Portela ressalta que: Tão importante quanto plantar variedades (de plantas) atrativas... é preservar as variedades nativas que eles já disseminam naturalmente. Por falta de conhecimento costumamos exterminar diversas delas e até chamar de pragas, esquecendo que quando uma planta começa a esparramar por todos os lados rapidamente é o sinal que ela alimenta nossos 'funcionários não remunerados' da avifauna local. 

Além disso, muitas dessas plantas espontâneas são consideradas medicinais, bioindicadoras e alimentícias não convencionais (PANC).

Tem muitas atrativas aqui que apareceram sem que sejam semeadas. Renato Portela cita cinco delas:

- Fruta do sabiá (Figura 14)

Figura 14. Fruto sabiá (Acnistus arborescens). 
Fonte: https://www.colecionandofrutas.com.br/acnistusarbores.htm

- Jurubeba (Figura 15)

Figura 15. Planta de jurubeba (Solanum paniculatum). Fonte: Renato Portela.

- Maria pretinha (Figura 16)

Figura 16. Maria pretinha (Solanum americanum). Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBPZ57GrRNMrvsfMYrkvUGhCHwx3oLGkHUluyZTFp87f6i7_tuPjbCYkrTkH05Hh9Nb2lBG0b1MCeIlTasPXKHVU9uq1UC8zgw4vviPbv7orU3-xIXD1PwIVnVajPWcNKtnjs2ufwJZ0We/s1600/P1050244.JPG

- Joá (Figura 17)

Figura 17. Planta de joá (Solanum viarum). Fonte: Renato Portela.

- Jurubebinha (Figura 18)

Figura 18. Planta de jurubebinha (Solanum sp.). Fonte: Renato Portela.


Diversidade e riqueza de saberes na Rede Agroflorestal 

Enquanto uns estão imersos em uma paisagem degradada (ambiente físico e humano), que está se regenerando por meio dos SAF, outros atores estão dentro da Mata Atlântica, como ocorre em algumas localidades no bairro rural do Ribeirão Grande, em Pindamonhangaba e na Serra do Mar, em Ubatuba, com toda biodiversidade preservada ou em estágio adiantado de regeneração e convivendo com os problemas da fauna que frequenta os SAF.

Nas comunidades tradicionais do litoral (caiçaras e quilombolas) os ciclos das lavouras são conectados com os ciclos da fauna e a caça é inevitável; o que ocorre, também, nas comunidades caipiras tradicionais da Serra da Mantiqueira. Nessas áreas preservadas, os SAF são ilhas de agricultura dentro da matriz florestal.

Moatan Pinhal (Mogi das Cruzes) destaca o importante papel do caçador/coletor, do caboclo que comia tatu, porco espinho, jacu, veado, lebre, saracura, lagarto e o que mais tivesse a espreita no seu espaço. Porém, alerta dois problemas que de caçar para vender e matar sem comer.

Temos que reavaliar o conceito de produzir para quem está na cidade e/ou o que a cidade quer que a gente produza e a forma de existir. O que fizemos com o mar é o maior exemplo de extrativismo em um nível bizarro.

Porém, no Vale do Paraíba, na maioria das vezes (talvez), as coisas são um pouco diferente do litoral e os SAF acabam funcionando como áreas de refúgio e ilhas de biodiversidade, devido à riqueza alimentar, muitas vezes mais atrativa que a própria mata em regeneração em determinadas épocas do ano.

E a pergunta segue... Como conviver com esses problemas?


Contato com órgãos públicos

Conforme Jonas: 

Precisamos reavaliar a forma de produzir e de coexistir.

Precisamos gerar conhecimento sobre essas relações. Existem várias receitas e técnicas e isso pode ser trocado e aperfeiçoado. A caça não dá conta dos animais exóticos. Tem muito caçador e javali e lebre tem de monte. 

Tenho desenvolvido conhecimento na área de cerca elétrica. Instalei algumas já. Só  que para animais pequenos é outra estória. 

Jonas destaca que começou um diálogo com o pessoal da APA Fernão Dias para saber sobre controle de fauna exótica. Mas até agora percebe que estamos por conta própria. 

O aumento da biodiversidade (dos SAF) dá conta dos bichos nativos. Principalmente muita fruta nativa. Claro que com algumas técnicas, para não deixar eles tão à vontade no meios dos plantios... Sobre os (animais) exóticos, não vejo solução rápida. Vejo muito edital e produção de conhecimento nos plantios agroecológicos, mas temos que ter uma contrapartida no controle de fauna exótica, principalmente. E não falo de caça. Jonas

Antonio Devide relata que iniciou contato em Dez./2021 com a Coordenadoria de Fiscalização e Biodiversidade da SIMA - Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo e que aguarda um retorno para tratar do controle de javali no bairro Ribeirão Grande em Pindamonhangaba.

Vamos trocando ideias!


Contribuíram com este relato:

  • Alda Maria Amaral Santos - Sítio Betel, lote 14, Assentamento Egídio Brunetto, Lagoinha-SP.
  • Ana Lúcia Martins - Sítio Toca do Tatu.  Endereço: Rua Braz Armando de Souza, 270, bairro Marafunda, Ubatuba-SP.
  • Ana Salles Aguiar - Sítio Terra de Santa Cruz. Endereço: bairro Santa Cruz, Roseira-SP.
  • Antonio Carlos Pries Devide - Sítio Arco Íris. Endereço: Estrada das Borboletas, 4870, bairro Ribeirão Grande, Pindamonhangaba-SP.
  • Bruno Zilio Franzin - Sítio Alto da Montanha, bairro Bom Retiro, São Luiz do Paraitinga.
  • Francisco Vitorio de Oliveira Zanin - Sítio Recanto da Paz,  Estrada Cachoeirinha, São Luiz do Paraítinga-SP.
  • Gisele Aparecida Sávio Vieira - Fazenda Vera Cruz. Endereço: Ribeirão Grande, Pindamonhangaba-SP.
  • Janaína Anacleto - Sítio Anacleto. Endereço: Assentamento de Reforma Agrária Conquista, Tremembé-SP.
  • Jonas Pereira Rodrigues dos Santos - Sítio Panamã. Endereço:  Estrada Rural Chico Justo, km 05, Bairro Santa Luzia, Sapucaí Mirim-MG.
  • Júlia Trommer de Campos Vaz - São Tomé das Letras-MG.
  • Juliano Hojah da Silva - Sítio São Sebastião (@sitiodoaltodaserra), Bairro Alto, Natividade da Serra-SP.
  • Leandro Braz Camillo - APA São Francisco Xavier, São José dos Campos-SP.
  • Matheus Santaella, Endereço: bairro do Turvo, São José dos Campos-SP.
  • Moatan Ribeiro Pinhal - Sítio Bico do Piu. Endereço: Estrada do Mombuca, caixa 10, distrito de Taiaçupeba, Mogi das Cruzes - SP.
  • Renato César Sbruzzi Portela - Chácara José Cândido, AV José Cândido Sbruzzi 1003, Caçapava-SP.
  • Tamara Regina França da Cruz - Fazenda Mundo Bom, Bairro Quilombinho, Cunha-SP.
  • Thales Guedes Ferreira - Sítio dos Ipês, Cruzeiro-SP.
  • Vinícius Ribeiro Pontello - Sítio Sagrado Coração da Terra, Estrada da Cachoeira, km 7, Bairro Dona Luciana, Gonçalves-MG.

Sistematização: Antonio C. P. Devide - Pesquisador científico do Polo Regional Vale do Paraíba - APTA/SAA <antonio.devide@sp.gov.br>

Referências bibliográficas

Mansur, M.C.D. 1996.«Megalobulimus parafragilior». www.iucnredlist.org.«2006 IUCN Red List of Threatened Species.». www.iucnredlist.org,Dados de 7 de Agosto de 2007.

4 de jan. de 2022

MICHEL BOTTAN, ENTREVISTADO PARA O PLANO DE AÇÃO DA REDE AGROFLORESTAL DO VALE DO PARAÍBA, CONVIDA PARA O PRIMEIRO MUTIRÃO DO ANO DE 2022, A SER REALIZADO NO SÍTIO DESPERTO, NO BAIRRO SERRINHA EM CAÇAPAVA, DIVISA COM JAMBEIRO - SP


Programação:

Início às 6:30h com yoga e meditação da paz conduzida pela Gabi 
7:00h - Café da manhã/tarde colaborativo: cada um traz algo saudável (VEGETARIANO). Obs.: evitar presunto (pois é carne)
8:00h - Início do mutirão
11:30h - Parada para almoço
13:00h - Roda de conversa sobre regeneração sistêmica 
14:00h - Mutirão 
17:00h - Encerramento com roda de conversa e dança circular
17:30h - Fogueira e por do sol (se não chover)

Formulário para inscrição, pois precisamos estimar quantas pessoas virão para o almoço:

https://forms.gle/2Jsd6Htg6TwrfSMu9 

Figura 2. Gabi e Michel e a produção agroflorestal.

Local: Estrada Municipal José Mariano, Caçapava - SP, 12282-000. http://www.desperto.com.br/ 

Q8Q6+XR Caçapava, São Paulo


https://www.google.com/maps/place/S%C3%ADtio+Desperto/@-23.2100195,-45.6901465,17z/data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x94cdade632247e4f:0xd79793a2534b17f0!8m2!3d-23.2100195!4d-45.6879578

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ENTREVISTA PARA O PLANO DE AÇÃO DA REDE AGROFLORESTAL

Data da entrevista: 10.04.2021

Local: Caçapava - SP

Por: Leandro Braz Camillo

Esta entrevista com Michel Lemos Motta Bottan (Figura 2) traz informações importantes sobre os mutirões agroflorestais e aspectos da organização da Rede Agroflorestal para fortalecer unidades de produção isoladas na paisagem. No caso do Sítio dele, está em Caçapava, na divisa com Jambeiro. Boa leitura. 

Como chegou até a vida no campo, você sempre viveu no campo, qual o caminho até a pessoa chegar a essa vida de produção rural, e o que motivou a essa escolha?

MICHEL: Eu sempre trabalhei com tecnologia… desenvolvimento de software... aí cheguei até a criar uma empresa e tudo mais... mas aquele estilo de vida não fazia mais sentido para mim né cara, de estar trabalhando com tecnologia voltada pras coisas como elas são…

E aí, nesse processo eu vi que precisava plantar a minha comida pra[LBC1]  Ter essa autonomia sobre produzir alimento. E aí fui pesquisando até que eu descobri a agrofloresta, né? Fiz um curso em 2016, com Ernst (Götsch), e aí como foi uma vivência bacana, eu resolvi virar a chave instantaneamente.

Aí eu parei de trabalhar com tecnologia, né? Do jeito que eu tava, aí eu peguei a grana que eu tinha e fui atrás de comprar um sítio, né? Então eu tive esse privilégio, né? De poder fazer isso com essa idade… já idealizando que isso seria um processo pós aposentadoria.

Então cara, eu cheguei na pegada de fazer agrofloresta (...) e fazer horticultura [LBC2] , prá poder viabilizar a produção. Mas o primeiro ano foi muito difícil, por vários motivos e antes que eu me enforcasse financeiramente eu resolvi parar com horticultura.

Então cara porque eu resolvi parar? Só tô plantando prá gente agora, prá nossa dinâmica atual. Eu tô gerando um excedente, eu quero gerar um excedente prá beneficiamento de produtos e também pros hóspedes que a gente tá recebendo no sítio, né? Galera tá vindo se hospedar com a gente, boa parte dessa galera tá querendo conhecer agrofloresta né? Então tá sendo mais essa jornada ai mesmo e focar nas frutíferas, madeira, que tem pouca plantada, mas principalmente bambu, não no contexto do saf mas no contexto do sitio ne. mais as rodas e tal…

Então é isso, horticultura por vários motivos eu não tenho uma condição favorável pra produzir. Condição ambiental, porque eu tô numa face de montanha que ela é totalmente exposta, eu tô na primeira montanha que vai virar Serra do Mar. Então eu recebo muito vento, muito vento seco.

Eu tenho problema com água, porque em toda a região secaram as nascentes, secaram as cachoeiras. Então eu só tenho um poço caipira e eu tenho as nascentes que são semi-perenes… Então agora, por exemplo, elas já estão parando de minar… Então eu não tenho água pra dar continuidade ao plantio. Mas mesmo na épocas das chuvas a gente vê que tá muito constante a questão dos veranicos… Assim, chove uma semana e depois fica uma semana com aquele solzão, entendeu? Então, dependendo do plantio que você fizer, não sustenta né? E aí, dependendo da semana em que você vai plantar, não chove… e aí você perdeu já o “time” (tempo) das coisas. Então, mesmo na época das chuvas, precisa ter irrigação cara. Não prá usar no dia a dia, mas para usar nessas janelas que não tem chuva né?

E aí a questão das estradas também. Eu tô aqui na cidade agora porque meu carro quebrou, tipo quebrou inteiro assim… Porque a estrada é muito ruim. Então o carro vai pro espaço e é um “puta” prejuízo, sabe? O custo é alto né cara? Eu gasto um jogo de pneu por ano! Porque é só morro, subida, subida, subida… Então meu contexto não é favorável. Não tenho mão de obra, não tenho nem pessoas prá me ajudar com diárias lá…

 

De que forma está a organização social do seu núcleo/território, para construção coletiva de mudanças necessárias? Existe uma organização mínima? Existe algum tipo de liderança? Existe alguma forma de ajuda mútua para alguma demanda?

MICHEL: Então, assim, a gente tá numa região que não tem presença de agricultores agroecológicosNão tinha, né? Porque esse ano parece que foi o ano em que a coisa catalisou e chegou um monte de gente querendo fazer agrofloresta em Caçapava, especificamente.

E aí eu acabei de criar um grupo aqui, prá galera de agrofloresta de Caçapava. Então tem aí, agora, um grupo de seis pessoas, mas além de mim, só tem mais um que quer plantar prá comercializar. Os outros querem fazer agrofloresta, assim, como um pomar, entendeu? 

Mas assim, a gente recebeu muitos hóspedes, a galera está nos procurando para as hospedagens por causa da agrofloresta, entendeu? Então a galera quer ir pro campo, quer entender o que é permacultura, o que é agrofloresta. Então ao invés de procurar um 'Airbnb' (plataforma on-line que ajuda a encontrar locais para hospedagem), que só vai ter um chalé, a galera pensa em se hospedar com uma galera que já passou por esse processo… 

Então a gente recebeu um grupo de amigos que tava vendo terra ali pela região de Jambeiro. Estavam alí vendo terra porque querem fazer permacultura, querem fazer agrofloresta e já foram ficar lá em casa prá poder trocar uma ideia, né? Então é isso cara, está acontecendo sim, muito forte!  

 

O que você acha de importante na produção agroflorestal?

MICHEL: Cara, eu acho assim, a horticultura com a agrofloresta dependendo da dinâmica que o cara tá, ela consome a energia da pessoa que ela fica travada prá conseguir expandir a agrofloresta.

Então a horticultura com a agrofloresta não é uma abordagem que eu recomendo, entendeu? Se o cara puder fugir...  foge, cara! 

Você pode ver a galera que faz agrofloresta com hortaliça, ela fica travada prá manejar a área, prá expandir a área, porque ela é consumida pelo operacional da hortaliça. Entendeu? Então, se der prá fazer agrofloresta, pensando em processamento ou plantios de ciclo médio e ciclo longo, o cara vai plantar de 3 meses prá cima... milho, mandioca, inhame, ou coisas semi-perenes, tipo uma beringela, uma pimenta cambuci.

Mas fugir daquele plantio recorrente, sabe? Até mesmo um repolho que leva até 90 dias, mas com um cuidado mais exigente, sabe?

Eu acho que esse tipo de cultivo tem que estar mais próximo da cidade. Eu acho que folhosas tem que ir pra área periurbana e deixa as florestas surgirem nas áreas mais rurais, mais de natureza, de proteção. Enfim, porque é pra gente conseguir fazer agrofloresta, né?

Nesse ano que eu comercializei, eu fiquei travado em 300m2, entendeu? Porque naquele espaço é mais ou menos o que você consegue fazer sozinho, entendeu? Além de uma ou outra coisa que você consegue fazer uma monoculturazinha, tipo um milho, uma mandioca. Aí trava você!

Acho que você evita isso, de aproveitar o tempo e colher as frutas lá na frente sabe? Seja banana, mamão, acerola, café, pupunha...

Acho que a agrofloresta é tipo assim... muito estruturada, do ponto de vista de você ter as colheitas a cada ciclo certinho. Só que daí traz outra complexidade né? beleza, você vai ter alí acerola, vai ter café, vai ter pupunha, e aí você vai ter que aprender a beneficiar tudo isso. Você tem que apreender a acessar o mercado com esses produtos, produtos diferentes a cada momento entendeu? É um trampo, eu vejo que é um trampo. Eu não tô nesse estágio ainda. Na verdade a gente tá no estágio da banana, ainda né? Mas a banana a gente já tá beneficiando... tem que comprar um desidratador, tem que aprender a desidratar, tem que aprender a vender... isso, no mercado. Existe uma complexidade que é de ponta a ponta, que não é só plantar... é o plantar até comercializar... Isso é geral, é prá hortaliça, mas agrofloresta traz uma complexidade maior. É uma complexidade, mas é uma oportunidade. Uma coisa é você vender banana, outra coisa é você vender banana desidratada. Então, prá você fazer uma agricultura financeiramente sustentável, a gente tem que desidratar. A gente tem que pegar o café e beneficiar, tem que pegar as outras coisa e beneficiar. E aí eu acho que falta essa etapa pro agricultor, que é a de entrar no beneficiamentoNão acho que seja um passo seguinte...

Eu li um artigo super rápido, escrito sobre isso porque eu acho que a gente tem a oportunidade de repensar uma cultura alimentar... Não um agricultor como produtor, eu nem gosto desse nome..., eu vejo que o agricultor tem a oportunidade de explorar alimentos que o consumidor não tem, entendeu? Explorar no sentido, assim, de qual é o potencial alimentício desse ou daquele alimento.

Então, saber como cozinhar, como fazer o doce, como fazer o salgado... Então, ele tem um potencial de ser um educador em uma cultura alimentar, mas se ele planta para ser produtor e não come bem o que ele planta, primeiro que ele não é uma pessoa bem nutrida, nem a família dele. E segundo que a gente deixa de criar essa oportunidade de realmente levar a cultura alimentar, entendeu? Então, eu acho que assim, para mim, hoje, se pudesse, pula hortaliças, já vai direto para o beneficiamento. Entendeu? Porque dá para beneficiar coisas de ciclo médio, já de cara, né?

 

Como você define a Rede Agroflorestal? O que é a Rede pra você?

MICHEL: Ah! Cara, eu acho que a Rede é essa criação coletiva, que ela é expressão do que as pessoas estão precisando naquele momento, do que elas tão sentindo, sabe? Eu acho que como qualquer rede, cara, a gente entra e sai dela muitas vezes. Entendeu? Porque a gente não é feito de um nó só[AD3] . A gente está conectado em várias redes simultaneamente, né? E a gente pode tá conectado no momento, sair e se conectar outra vez, aí a gente vai ficar assim, né?

Então, eu só acho que talvez a rede precisa de alguns passos além dos processos de mutirão, que são extremamente importante. Entendeu? Mas da mesma forma, os mutirões, eu acho, que eles precisavam ser um pouquinho diferente. Entendeu? Na dinâmica de quase todos que eu fui não tava fluindo legal a dinâmica, nem para quem tava recebendo, nem para quem tava indo visitar. Eu acho, entendeu?

Porque… cara, eu acho que os mutirões... tem que parar e olhar o que tá acontecendo, né? Assim, a galera tava indo trampar no campo... Tem que olhar a dinâmica... Tavam indo muito tarde pro campo... Aí, você não consegue começar uma dinâmica com o sol rachando...

Todo mundo ao meio dia já tá desidratado, já tá com fome e aí volta do almoço e a galera já tá um pouco exausta... O sol castiga nesse horário, né? Eu acho que a gente tinha que ter uma dinâmica de mutirões um pouco diferentes[AD4] ...

Mutirões fora daqui eu não fiz, não... Foi só por aqui mesmo. Eu estive conhecendo outras dinâmicas em outras regiões, mas de SPG e tal... mas de mutirão, não... De mutirão só participei de um, da galera do “Mutirão Agroflorestal”. Mas, aí foi no formato de curso e tal..., não foi de mutirão. Foi lá em Piracicaba, na Esalq (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"/USP), lá com a galera lá..., mas é... mais em formato de curso, assim...

Então, é que eu acho que, assim, o mutirão, como eu entendo o mutirão, eu acho que aquela coisa talvez mais localizada, sabe? Tipo, é complicado, por exemplo, eu participar do mutirão... sair daqui e ir até Pinda. É um trampo cara! De Pinda. para cá, entendeu? Tanto, que assim, você não vê muita troca de pessoas de lugares mais distantes...

Então, acho que o mutirão eles surgem num contexto muito mais local, entendeu? Da mesma cidade, no máximo da cidade vizinha, sabe? Para permitir, né? e até justificar o deslocamento... de a galera chegar cedo... Então... enfim, eu acho que o mutirão para mim é muito válido cara, mas eu acho que a gente poderia ter um formato diferente... Talvez dois dias, que a galera chega talvez no dia anterior, já está lá no final de semana para render um pouquinho mais, né? E para ter troca além do trabalho né?

Cara, eu acho que só troca fica difícil a gente conseguir entregar um trabalho que gera execução que gera... um bem também, sabe? E que possa gerar, também, trocas humanas, sabe? Que as pessoas possam... as pessoas passam dançar, juntas, elas possam se alimentar com calma.

Então eu acho que tem que fazer as coisas para não ser só trabalho pesado e para chegar à noite cara, todo mundo tá cansado, vai chegar alguém e puxar um violãozinho, vai ter uma fogueira, vai ter um espaço muito mais humanizado do que do que apenas esta troca de força depois do trabalho. Entendeu?

Eu acho que a gente precisa ir para um caminho onde a gente tenha mais, assim..., que a gente consiga criar laços mais afetivos. Entendeu? Acho que a palavra é afeto, cara! Então, esses laços afetivos a gente precisa criar... costurar!

Aí, por exemplo, né? só trazer um pouquinho lá da (Rede) Apoena... a Apoena conseguiu ter a eficiência, mas acho que não teve, não conseguiu, ter o laço afetivo.

Mas, ao mesmo tempo, as pessoas estando distantes, né? como eu falei... um está em Pinda, outro está em Taubaté, eu tô em Caçapava... o pensamento, ele começa a se mover...

 

De que forma você vê a atuação da Rede Agroflorestal? Avalie as colaborações da Rede, até o presente momento, para você, para a sua comunidade e para a paisagem? E outras contribuições que queira pontuar.

MICHEL: Eu acho que tá difícil responder isso de bate pronto, assim! Mas eu acho que a Rede tem que começar pelas coisas mais simples, mais básicas... sabe? E o simples é o quê? É uma formação mínima para quem quer aprender agrofloresta. Então, vamos supor que, anualmente, ou que seja bianual, a Rede Agroflorestal faz uma formação em Agrofloresta, que vai capacitar qualquer pessoa a poder ser um agricultor agroecológico, agroflorestal [AD5]sabe? Isso é uma forma de você acolher quem tá chegando, né?

Mas isso não precisa ser um curso, cara, pode ser um projeto, assim que você chega na Rede e ganha um padrinho...uma madrinha... prá estar te acolhendo, alí, para te dar um apoio...

Mas eu acho que tem outra coisa que é a Rede entrar na educação e também entrar na questão do alimentos, entendeu? Que é uma necessidade... é trabalhoso, tem um custo... ter acesso às sementes e as mudas[AD6] ...

É um trampo cara! Na verdade eu poderia fazer um sistema muito mais biodiverso se eu não tivesse que fazer um trampo de coletar as sementes ou se eu tivesse dinheiro para bancar todas as mudas, entendeu?

Então, eu acho que ter a casa de sementes florestais, forte... de sementes crioulas, também, para produção, né cara?... feijão, milho... é fundamental[AD7] .

Então, acho que é assim: A Rede Agroflorestal tem um histórico legal... eu acho que ainda falta o Vale saber e isso pra mim é o básico, sabe?

Então, fica difícil até de olhar lá para frente... de outras possibilidades... Pode atuar na comercialização, pode fazer um monte de coisa cara! Mas a gente tem que resolver primeiro o arroz com feijão, né?

 

O que você vê como importante para ser trabalhado, desenvolvido, para os próximos anos com a Rede Agroflorestal? Quais as principais demandas que necessitam ser trabalhadas para melhorar a sua atuação e do núcleo onde você está inserido?

MICHEL: Eu acho que é só isso mesmo... se a Rede puder fazer isso eu acho que já é um passo importante... para acolher quem chega e ajudar quem tá fazendo [AD8]né?

E eu acho que... assim... é que a gente olha muito aqui para a questão de fortalecer comunidades biorregionais, né? Então, esse distanciamento físico das pessoas dificulta as coisas. Então, prá galera que tá no assentamento, a possibilidade cria possibilidades. Entendeu? Mas para a gente que tá longe né? Porque a gente tá aqui na divisa de Caçapava com Jambeiro... a pessoa mais próximo que faz agrofloresta é o Lucas que tá em Jambeiro... mas ele tá na divisa com Paraibuna, né? Então, é mais ou menos uma hora, entendeu? (a dificuldade de contato)

Então, isso daí não cria a necessidade de troca... troca de trabalho, de maquinário, de sementes, de afeto...de tudo, entendeu? Então, eu acredito no fortalecimento dessas comunidades que estão muito próximas [AD9]Entendeu? De pessoas que estão muito próximas, formando, não necessariamente uma ecovila, sabe? Mas uma comunidade, mesmo, que consegue trocar...

Não sei se você já viu... que fala, né? de como as variedades de feijão foram criadas... que era do contexto de quase horta urbana... das pessoas muito próximas e umas plantando muito próximo as outras, e isso criar as variedades de feijão, né?

A gente tá olhando prá alguns conceitos que hoje parece que é coisa nova, né? Sobre essa coisa do biorregionalismo, né? Mas, na verdade o (Mahatma) Ghandi já falava lá em 1920... definiu, deixou claro esses conceitos... que era satyagraha... que era a ideia dele de libertação do domínio, que era de criar comunidades autônomas resilientes[AD10], onde essas comunidades vão produzir o eu alimento, vão produzir o seu tecido e controlar a sua demanda por recursos, prá que ela pudesse dizer não ao imperialismo inglês, né?

Então, assim, você trazer isso prá nossa realidade, num contexto que a gente vive hoje, tudo isso é autonomia, tudo isso é liberdade... de a gente poder plantar um alimento, de a gente poder trocar, porque autonomia não é você plantar tudo que você precisa comer, né? Você planta, mas a autonomia você conquista através da interdependência, né? Então, eu planto feijão e você planta mandioca e a gente troca... Então, assim, eu acho que fortalecer a presença desses locais é muito importante... e na verdade eu acho que é até simples de a Rede poder atuar nisso... que é o que a gente está fazendo hoje lá... a gente está virando assim, o corretor... Corretor dos imóveis do entorno, entendeu? Então a gente, assim, atua como corretor informal, sabe? E não tá ganhando nada com isso, mas a galera que tá falando que quer fazer agrofloresta e permacultura a gente chega e fala assim: Opa, chega aqui que tem um terreninho aqui do nosso lado...

Então, eu acho que a gente pode atuar nesses núcleos, sabe? E se a Rede puder ajudar a fortalecer esse movimento[AD11] ... porque, assim, tá rolando uma migração em massa agora, agora! (da cidade para o campo).

E se a Rede pegar essa galera que tá querendo fazer agrofloresta e falar assim: Meu, não se joga lá prá longe... Cola no Michel, cola no Antônio, na galera que já tá fazendo... que você vai chegar mais rápido. Então, já ajuda né? Ajuda ela e ajuda quem tá lá, entendeu? Porque vai fortalecer todo mundo. Acho que é o caminho aí...

A gente tá no bairro da Serrinha, em Caçapava, divisa com Jambeiro.

Obrigado!
Michel Lemos Motta Bottan

Links com destaques mais importantes feitos pelo entrevistador:
[LBC1]mudança de paradigmas, reconstrução pessoal
[LBC2]vontade de fazer agrofloresta
A Rede é uma [AD3]criação coletiva, a gente entra quando precisa e sai quando quer, muitas vezes.
[AD4]Melhorar a dinâmica dos mutirões: planejamento, começar mais cedo, utilizar ferramentas para fortalecer/melhorar a implantação e principalmente, fortalecer as trocas humanas (empatia).
[AD5]Capacitação em agrofloresta
[AD6]Viabilizar o o acesso às sementes e mudas
[AD7]Casa de sementes
[AD8]Acolhimento
[AD9]Fortalecer núcleos
Foco dos núcleos é o  [AD10]autoconsumo e a troca
[AD11]Fortalecer o movimento do novo rural: acesso à terra perto de núcleos